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Debora King

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Memórias

Sonhei

    Esta noite sonhei contigo, mas não foi um sonho qualquer. Sonhei contigo e não me vias, enquanto isso eu te observava.

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Saturno, Ka, Cronos, Karma,

     2013 foi ano regido por Saturno, o planeta que representa o deus do tempo, do karma, da vida e da morte, das obrigações, da maturidade, do trabalho. E foi um ano que, de fato, Saturno me atropelou furiosamente. Não só a mim, mas a todos os mortais… a influência dele atropelou muita gente, destruiu e reconstruiu muita coisa em muitas áreas. Mas a mim, ele fez reavaliar coisas, mudar posturas à base da força bruta daqueles anéis de pedra dele. 

     Então, depois de um janeiro pavoroso, decidi que ignoraria as mensagens de Saturno pra mim, baixaria a cabeça e trabalharia como um animal em prol da manutenção do meu coração de Pollyana mesmo com todos os problemas que me apareceram ao longo do caminho.
Não houve área da minha vida que não tenha sido afetada de forma extremamente negativa por Saturno neste período, e todos os problemas a serem resolvidos se mostraram para mim logo na arrancada do ano que passou. Pensei que não seria capaz, acho que foi isso o que mais me impulsionou a ignorar a presença do grande maléfico pendendo sobre a minha cabeça e tentando me aniquilar.
Vivi mês a mês contando os mirrados, remoendo os ódios que me apareciam no caminho, me sofrendo por punições que eu julgava terem sido suficientes e que nunca terminavam. Só a minha saúde não definhou, porque de resto não faltou mais nada pra se estragar. Não é ser negativa, isso é realismo saturnino.

     De setembro do ano passado para cá, as provas ruins foram se encerrando, uma a uma. Cada vitória, uma recompensa diferente. Prêmios por mérito da força dispendida em me manter de pé e que, inconscientemente, ocasionaram vitórias que eu nem sonhava. Novembro tive uma última prova só pra me lembrar que sim, o horror é real e que a precaução é necessária sempre, senão Cronos vem e derruba. E as vitórias foram sendo tantas que cheguei ao ponto de não me ver merecendo tanto… até que hoje, com essa Lua em Virgo, meu senso crítico me desenhou em minúcias o que realmente foi 2013.

     Agora, março de 2014, teoricamente um ano jupiteriano, eu recebi a última recompensa de Saturno pela minha disciplina ao longo de todo o horror que permeou meu 2013. Minha mãe acabou as radioterapias dela, os prognósticos médicos são mais positivos do que poderíamos esperar. Foi a primeira rasteira de Saturno pra mim no ano passado. E a mais esperada vitória que eu queria… chegou por último pra coroar tudo o que passei e venci.
Mal caibo em mim quando vejo o passado e o agora, em todas as áreas da vida que me interessam e que foram superadas. Estou comemorando as conquistas uma a uma. Mas não comemorando no sentido Jupiteriano do termo… no sentido Saturnino dele. Trabalhando melhor, me acautelando mais, segurando mais o dinheiro, planejando e executando de forma mais minuciosa, mantendo os meus segredos somente meus, preservando meu coração das exposições ao mundo, amando mais os meus.

     Às vésperas do meu Retorno de Saturno (9 meses e contando), estou temerosa e ansiosa. Torço que não seja dolorido como o que vivi em 2013 (muito embora saiba que, pela intimidade do que tratará o meu retorno pessoal, vai sim doer), mas desta vez estou mais previdente, prudente e observadora. Momento de separar o joio do trigo, de modelar minha armadura e organizar minhas provisões para a grande batalha. Tenho estudado o céu como louca e sei bem o que me aguarda. Mas e será que tenho coração para tanto?

     Que Saturno nos proteja pelos nossos merecimentos.

A minha solidão

A minha solidão é um álbum cheio fechado. Sou filatelista e cada selo que guardo é uma mágoa presa à minha solidão a custo de lágrimas vertidas a cada raridade encontrada.

A minha solidão é uma música cantada à exaustão e a rouquidão que lhe sobra é o preço de tanta perturbação às escalas sofríveis a que me proponho.

A minha solidão é o silêncio que mascara horas de sono, ruídos e falas que, unidos, não ressoam um bem-me-quer sequer.

A minha solidão é a escuridão que descortina horrores ao amanhecer, horrores que escondi como poeira por debaixo das horas da mansidão que eu imito tão bem.

A minha solidão é o teu sufocamento estrangulado por olhos que te miram incansáveis por detrás de uma teia de palavras que teci para injetar em ti a dor da tua impotência.

Deb e suas sugestões equinas

Conheço uma pessoa que vive reclamando da vida. É porque o dia está nublado, é porque tem sol, é porque o ar é invisível, ou porque o céu é azul e a vida é bonita. Nada nunca é bom na vida desse ser. É sempre tudo ruim, triste, vazio, muito caro, feio, fedorento, chato, bobo e cara de mamão.

E dentro dessa deprimência de vida, a tal criatura acumula paranoias, hipocondrias, ignorâncias e teimosias que ninguém que frequente o mesmo círculo social é capaz de suportar tal presença por muito tempo sem ser estúpido. É de se questionar como anda o casamento desse homo sapiens sapiens tão absurdamente CHATO e infeliz.

Pois numa dessas tantas choradeiras do mar de lágrimas da chatice personificada, decidi dialogar. Do meu jeito, claro. Transcrevo o que se falou depois de uma vasta choradeira de ordem financeira e medicamentosa:

 

DebsLinda –  Tá. Mas me diz uma coisa, deve ter algo de bom na tua vida, me conta.

PthirusPubis – …

DebsLinda – Não é possível que não tenha nada de bom na tua vida, que te dê alegria, vontade de viver, essas coisas…

PthirusPubis – … é, só que…

DebsLinda – Então eu te sugiro o suicídio. Pensa bem, nada presta, tá tudo ruim na tua vida… é uma boa solução, além de não conviveres mais com teus problemas, poupas os ouvidos de muita gente, só sabes reclamar.

 

Não entendo até o presente momento porque é que eu só tive o silêncio do ser chatíssimo desde aquele dia.

Mas que filme triste!

Esses dias, conversando sobre desilusões amorosas, fiquei tentando me lembrar quando foi a minha primeira desilusão. Não precisava ser uma grande, mas precisava ser uma desilusão, mesmo que em um nível menor… aí eu me lembrei  e ri.

Minha primeira desilusão não foi nem minha. Pra ser sincera, foi de alguém que eu nem conhecia, mas me fez chorar por horas…

Sente só o drama: em 1994, 1995, sei lá, eu ganhei dos meus pais o lançamento de Sandy & Júnior daquele ano, o “pra dançar com você”. Eu, com meus 8 ou 9 anos, adoraaava Sandijunior. Achava o máximo aquelas duas crianças que cresciam junto comigo, já que a Mônica e a Magali eu tinha feito a magia de conseguir passar da idade delas (inocência triste).

No tal cd tinha a música “Filme Triste” , que também não era deles, era da moça do Estúpido Cupido (pra longe de mim), a Celly Campelo. A música dizia algo tipo isso:

Meu broto me avisou que ia estudar (aiaiaiai)
E ao cinema eu fui me distrair (aiaiaiai)
Ao chegar nem quis acreditar, eu vi meu bem sentado com alguém em frente a mim.
Os dois agarradinhos eu notei (aiaiaiai)
A minha melhor amiga me traiu. (aiaiaiai)
Trocavam beijos e eu quase morri.
E do princípio ao fim do filme eu chorei

OuOuOu
Filme triste que me fez chorar

E ao chegar em casa mamãe viu (aiaiaiai)
Os meus olhos vermelhos de chorar (aiaiaiai)
E abraçada a ela eu expliquei que o filme foi tão triste que eu até chorei…

E a Deborinha, desde muito novinha presa às palavras, ouvia com atenção à música que tinha até um trecho da trilha de ET no meio, quase que morre quando descobre que a melhor amiga era uma piranha traidora cachorra sem-vergonha. Pobre Deborinha, chorava de soluçar! Que desilusão, coitadinha da Sandijunior!!! Como me doía aquilo. Chorei junto cantarolando ououououfilmetriiiisteeeeeequemefezchoraaaar snif!

Minha mãe, coitada… a essas alturas nem se surpreendia mais com meus surtos de loucura, veio ver o que acontecia que eu tanto chorava e soluçava com aquele cd na mão e os headphones nos ouvidos. Claro que eu precisava manter a mentira…

– Mãe, o filme foi tão triste… que até EU chorei.

O eterno berçário masculino

Me lembro que, aos 13 anos, fui doentiamente apaixonada por um menino da minha escola. Eu estava na sétima série, ele na oitava. Era um abobado, coitado… mas aqueles olhos azuis dele faziam com que todas as noites eu deitasse a cabeça no travesseiro e sonhasse com o dia que ele pegaria na minha mão e diria que gostava de mim também.

Recordo que eu tinha “agentes” que tiravam fotos dele e me davam, arrancavam informações que eu queria sobre ele e me mantinham atualizada sobre ele estar com alguém naqueles dias. Era engraçado que eu não tinha coragem de dar um “oi” pra ele, imagina! Ele saberia que eu estava apaixonadíssima nele! É, eu era uma guria de 13 anos com um retardo, fato.

Quando ele fez 15 anos, em outubro daquele ano, mandei entregar a ele uma carta lindíssima. Na realidade, eram duas cartas. Uma era quilométrica, com “eu te amo” repetido milhões de vezes entre trechos de poesias de Shakespeare e trechos de músicas que tocavam naquele período e eu mesma havia traduzido como prova de amor…acompanhando a master cartona, ia uma carta minha, completamente autoral, deslindando todo o amor infinito e imortal que eu sentia por ele.

Entregue a carta, ele soube quem eu era e passou a fugir de mim na escola. Não conversávamos, não tínhamos contato nenhum, mas ele passou a fugir do meu campo de visão. Eu sofria horrores pela falta de consideração dele. Não preciso dizer que em pouco tempo me recuperei e tudo o que eu queria era que ele me devolvesse a carta em que eu me declarava. Como eu podia ter escrito coisas tão lindas pra um cara tão infantil? Que ódio me dava.

Hoje em dia, com … 19 anos, percebo que eu amadureci, mas os caras continuam com os mesmos problemas. Canso de ver caras com 25, 30 anos que fogem das mulheres com quem estão tendo seus casos no exato momento em que elas decidem abrir o coração. É como um eterno berçário masculino.

Fico tentando entender os processos mentais que se desenrolam na cabeça de um ser humano que foge apenas porque há sentimento. Alô! Os tempos são outros, uma mulher gostar de um cara não quer dizer que ela quer altar, vestido branco e alianças. A maioria das mulheres já se desprendeu disso.

Se permitam mais, rapazes, vocês podem estar perdendo bons momentos (temporários) com uma mulher legal apenas por serem infantis!

Ah, e o carinha aquele? Pois então… reencontrei ele mais de 10 anos depois e ele se sentiu atraído por mim. Disse ainda ter a carta quilométrica e apelou até pro questionamento emocional “não consigo acreditar que tudo aquilo que sentias por mim tenha morrido por completo”.

Sorry, guy: TU mataste.

É… as voltas que a vida dá.

Curriculum Vitae

     Tenho andado numa fase de auto-análise, de olhar pra dentro, de tentar me achar. Na realidade sempre estive, nunca deu em nada, mas eu sigo inquieta. E é por essas e outras que tenho publicado tantos textos voltados pra mim mesma e com uma postura mais séria se comparada à postura que eu apresentava no começo do blog. Acho que a tal maturidade anda batendo à minha porta e, ao que parece, eu estou deixando ela entrar. Não que me agrade esse ar sério que tenho tomado diante de mim mesma… mas o tempo se encarrega de endurecer o que já foi mais flexível.
      Chega de apresentações… o fato é que a temporada de formaturas está aberta e cada vez que participo de uma formatura me voltam mil e um tópicos à cabeça. Quais? Um Curriculum Vitae de verdade, não aquele que só se baseia em papéis conquistados a custa de muito estudo/esforço, mas um curriculum que contempla a vida em si. Qual o teu currículo de vida? Já pensaste nisso? O que já fizeste de bom e mau que nunca ninguém vai tomar por quesito avaliativo, seja numa entrevista de trabalho, seja pra um concurso? Eis o meu:

     Eu sou a Debora-sem-acento-e-sem-agá, abelha em hebraico, nascida em um sábado de 1986. Sim, nasci no final de tarde do sábado, pra ferrar com qualquer festa que meus pais pretendessem. Como primogênita, dei à minha mãe todos os dissabores da maternidade, incluindo o direito ao choro. Não o meu, o choro dela, que por vezes pensava que não daria conta de cuidar da vida que tinha trazido ao mundo. Mamãe, acalma teu coração nervosinho, tu conseguiste. Aos seis meses eu já dava os meus primeiros passinhos e, como primeira estripulia, joguei uma cestinha de vime na cabeça do meu pai. Com um ano eu falava, andava e contava até 10. Pulando como uma pulga, mas contava.
     Cedo comecei a fazer aulas de balé. Parei aos 6 anos, depois de 4 anos de “pliê” e “elevê”. Entrei na escola aos 5 anos, já sabendo escrever meu nome e tocando terror na torcida (um dia conto minhas histórias de escola, e não são poucas). Quase reprovei no JARDIM por ser uma aluna indisciplinada. Mas o que eu queria pintando bonequinhos quando eu já sabia ler e escrever na metade do ano?
      Nos 5 anos que morei em São Paulo fui a maior ativista pró-gauchismo e pró-gordice que aquela cidade bizarra já viu. Brigava horrores pra defender meu direito de falar “tu” e meu direito de ser a gorda que sempre fui. Isso me rendeu muuuuuiiiitas sentadas no banquinho do santo lá da escola. Sei lá que santo era, mas muito sentei lá pra refletir sobre minhas atitudes violentas em relação aos meus coleguinhas.
     Aprendi a ler por conta. Meu pai me ensinou as letrinhas e, num domingo de sol, eu queria que alguém me lesse um gibi do Chico Bento e como o babado na TV estava fortíssimo, não fui atendida. Me tranquei no quarto e não saí enquanto não li uma página inteira. Com o cérebro exausto, saí aos berros: EU LEIO! EU LEIO! A maior emoção da minha vida até então, ler sem auxílio. Uma criança dessas não dá certo no meio das outras. E eu era avaliada pelo meu desempenho pintando boboquices e me comportando como uma apalermada. Não por eu saber ler e escrever.
     Fui Miss Caipirinha em 1995. Meu momento de glória no Ensino Fundamental. Ganhei uma faixa e uma bola de vôlei vagabundona, mas pra mim aquilo era o maior prêmio que alguém poderia conquistar. Eu deixei de ser a baderneira da classe por uma noite de festinha junina pra voltar a sê-la na segunda-feira seguinte. Grande feito pra mim, tenho a minha faixa até hoje.
     Aos 10 anos tive um choque de realidade. Eu e minha família passamos por problemas financeiros brutais de 1996 em diante. Eu aprendi a lidar com o não ter na forma mais prática e pura que eu poderia ter aprendido. E foi bom, eu descobri que não era o dinheiro que movia a minha felicidade. Sou grata pelo fato de a vida ter me ensinado lições, como a simplicidade, cedo. E por eu ter recebido do universo pais que sempre foram amorosos e nunca descontaram nos filhos as frustrações profissionais e financeiras. Crescer em um lar de amor foi fundamental pra construir o que sou hoje, mesmo eu sendo a monstra que sou.
     Fiz teatro, artesanato, cantei em coral, participei de grupos de poetas, fui campeã de caçador e vice-campeã de futebol na escola, ganhei concurso de escultura na areia e gincanas, fiz cursos profundíssimos sobre várias religiões. Fui evangélica, mórmon, católica, visitei umbanda e kardecismo. Fui fã de Hanson, Leonardo DiCaprio, KLB e Reação em Cadeia (dessa até presidente de fã-clube eu fui).
     Aos 14 anos entrei em sala de aula como professora pela primeira vez e nunca mais saí de lá. Já tinha querido ser dentista, cantora, atriz, advogada, bióloga, nada… mas sempre quis ser professora. Aos 17 concluí o curso de magistério com êxito. Era professora, oficialmente.
     Aprendi sozinha meu inglês, meu croché, meus amigurumis e os EVAs 3d. Aprendi e compartilhei o que aprendi. A vida foi boa comigo, sempre me deu o que eu queria, não tem porque eu ser egoísta.
     Sempre li muito, independente de quando. Pra mim e pros outros. Nunca privei alguém do que eu lia, mesmo quando era chatíssima lendo coisas que só eu gostava. Que o diga minha mãe enquanto fazia o almoço comigo correndo na barra da saia dela grudada em algum livro e lendo em voz alta toda emocionada alguma coisa que pra minha mãe não fazia diferença nenhuma. Obrigada mamãe, por ter sido sempre tão compreensiva e apoiadora.
     Já tive várias facetas: poeta, cantora de chuveiro, escritora de diários, atriz de teatro escolar, lunática, cachaceira, nerd, cdf, magra, gorda, nadadora, ciclista, patinadora, punk, pink, metaleira, água com açúcar, bruta, chorona, protetora, estúpida, amável, briguenta, pensadora, explosiva, extrovertida, tímida, cara de pau, boa moça, sem-vergonha, conservadora, mente aberta, tudo e nada.
     Fui babá, dama de companhia de idosas com Alzheimer, vendi toda a sorte de muamba por catálogo, estagiei como secretária, recepcionista, professora. Vendi material de Sex Shop, croché, lingerie, natura, avon, prata, bijouterias, e mais uma infinidade de coisas. Dei aula voluntária, particular, na igreja e pras colegas de trabalho da minha mãe.
     Fiz minha faculdade custeada pelos meus estágios e meus “bicos”. Me orgulho disso. Me orgulho de cada momento dentro daquela instituição. Inclusive os momentos de desespero em que pensei em desistir do curso por incompreensão de determinados professores “doutores”. Fiz mil e um cursos na minha área estando lá dentro. Soube aproveitar cada oportunidade e me instrumentalizei muito, até mais do que realmente precisava. Fui até membro do D.A. de Letras por 2 anos.
     Obviamente que um dos meus estágios foi totalmente fora do que o mundo acadêmico aceitaria, mas achei uma orientadora que me deu toda a credibilidade do mundo e encarou comigo quando inventei de dar aulas de escrita criativa em um projeto extraclasse na escola em que trabalho. Foi o meu ápice em tudo que construí ao longo do meu caminho. Foi o momento em que toda a minha bagagem foi canalizada em algo que eu sabia como fazer. E eu nem sabia disso.
     Me formei trabalhando na área, não caí no mundo dos desempregados… mas não me esqueço a via-crúcis que foi chegar ao emprego que tenho agora. De tudo isso que contei, o que eu poderia contar como curriculum pra um emprego? Oi, eu sou a Debora, tenho 19 anos, sou formada em Magistério e Letras  Português/Inglês, tenho também alguns cursos na área de Literatura, de Língua Portuguesa e cultura canadense. Ponto. E todo o resto do meu caminhar? E todas as histórias que eu tenho pra contar? E tudo que vivi e que me fez ser o que sou hoje em dia? Nada disso conta? Ao mundo que vivemos não. Mas enquanto humanos sim.
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     O que quero dizer com toda essa novela é que, por mais que a gente se “desbaratine” de vez em quando porque o mundo bate portas na nossa cara, não é um formato fixo e inflexível que vai avaliar o ser humano que se é. O que a gente leva por dentro é maior que isso tudo e temos que aprender a valorizar isso mesmo quando dói mais forte.
     Muitos amigos meus se sentiram tristes pelas notas do ENEM e se desacreditaram. Enfiem uma coisa na cabeça de vocês: vocês são mais do que uma prova mal formulada, a história e o caráter de vocês fala mais alto que isso. Tudo bem que isso não faz com que vocês passem no ENEM. Mas também lembra que vocês não são um fracasso da natureza, como gostam de se avaliar.
     Tenho conhecidos desempregados que se revoltaram. Recado: isso passa. E quando passar vocês vão ter apenas uma vaga lembrança do período sombrio que foi a busca por um emprego. Digo por mim, que por um bom tempo pirei desempregada e hoje em dia tenho o emprego que sempre quis. Relaxem, o universo vai dar voltas e voltas, mas vai encaixar vocês num local que o “perfil” de vocês seja acolhido com prazer.
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    O que está por dentro é o que importa. Esqueçam os papéis e as máscaras.

Ka is a (hotwheels) wheel

  Em meados de 2003 eu li um livro por duas vezes seguidas.
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     Foi um período difícil em que eu estava numa onda violenta de emagrecimento, com uma rotina caótica e tomando remédios para emagrecer. A insônia que eu já tinha havia ido aos extremos, fazendo com que eu dormisse às 5 da manhã e acordasse logo mais às 6h45 porque tinha que sair pra dar aulas voluntárias… final do magistério, precisava de experiência pra encarar o mundo cão.
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     Naquele tempo eu era sócia de uma biblioteca que hoje em dia não existe mais, ficava no 2º piso de uma farmácia muito conhecida aqui na cidade. O preço anual era bom para uma estudante que não tinha salário nem mesada. Vivia lá dentro. Dois livros semanais para mim, um infantil pro meu irmão mais novo, retirados religiosamente nas quintas.
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     No período em que percebi que a minha insônia tomava uns ares meio psicóticos, decidi parar de jogar paciência iluminada por uma lanterna na madrugada e ler algo, já que era pra ter atividade cerebral, que fosse com algo útil. Eu não costumava ler antes de dormir porque quando eu lia, me agitava ainda mais e dormia menos ainda… mas o ponto a que eu havia chegado, não tinha o que pudesse ser pior.
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     Naquela semana optei por Insônia, um livro todo detonado, imeeeeenso, do autor que eu já era fascinada. Foi a companhia perfeita pro momento que eu passava.
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     Engraçado que eu sempre tive o hábito de manter diários. Sempre, até hoje… e na época eu gostei tanto de insônia que eu decidi reler. Nas duas leituras, tomei notas alucinadas de trechos que eu havia gostado do livro. Minhas citações favoritas, por assim dizer. Engraçado que o que eu mais me lembro era a fascinação que eu tinha criado pelas três deidades, citadas no livro, que comandavam a vida – uma tecia, a outra media e a última cortava. Início, duração e fim da vida de qualquer ser humano que já passou, passava ou passaria pela terra.
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     Das citações mais fodas do livro, anotei num caderno preto que eu tinha a seguinte citação:
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Simplesmente o que vocês chamam liberdade de escolha faz parte do que chamamos ka, a grande roda da existência." (Stephen King)
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 Na época eu não entendia o tal KA. Nem sabia bem o que era… circulei, coloquei pontos de interrogação pra ver se anos depois eu achava uma definição que se aplicasse à tal grande roda da existência que não fazia sentido nenhum pra mim. Mas eu achava a citação fodástica.
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     Pois bem, como é conhecido, este ano tatuei o KA no meu antebraço. Lindo, cíclico, girando, comandando tudo… e foi a partir daí que o tal KA “kaotizou” a minha vida me dando twists insanos. O mais engraçado de tuuuudo que me aconteceu, são os seguintes fatos:
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     … durante as limpezas da casa achei este caderno, e no meio da seleção do que eu guardaria e do que eu colocaria no lixo, me aparece a citação acima exposta com os benditos pontos de interrogação… eu nunca teria imaginado o quanto o KA teria me ensinado de 2003 pra cá e, principalmente, o quanto ele passaria a fazer sentido e me nortear nas horas de insanidade absoluta. Ri de mim mesma pela minha ignorância juvenil e fiquei feliz por ver que o KA era menos recente e transitório do que me parecia.
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     … fato mais bizarro que o anterior foi o que me aconteceu hoje, menos de 30 minutos atrás: ontem numa limpeza da biblioteca da escola, a bibliotecária separou alguns títulos para doação, dentre eles – adivinhem a ironia do KA – Insônia, de Stephen King. Me senti como Roland ao receber o livro em mãos. Mas isso não é a ironia da coisa que eu chamo de pai do destino. A ironia mesmo aconteceu HOJE, AGORA. Quando, ao cadastrar livros novos na minha estante do Skoob, fui ver os dados do livro e achei um carimbo de biblioteca: o livro foi doado à biblioteca da escola por uma outra biblioteca. A biblioteca do segundo piso da farmácia.
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     A biblioteca do segundo piso da farmácia. A biblioteca que eu era sócia. O livro que eu li duas vezes em 2003. O 2003 que tinha um caderno preto com uma citação sobre KA que me fazia um sentido apenas parcial. O sentido que eu encontrei depois de velha e tatuei. E depois de tatuada achei o caderno e relembrei 2003… … … KA is such a fucking little wheel…

De quando eu, de fato, descobri o amor

… para ser lido ao som de Someone like you

Esses dias tive um surto psicótico. Daqueles de quase morrer… de chorar de soluçar como uma guria histérica que teve a primeira desilusão amorosa. E foi, tarde mas foi.
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Estava em casa, na minha rotina de sempre quando, ouvindo um cdzinho, me apareceu Someone Like You com um solo que chama o ouvido a prestar atenção. Sentei pra sentir melhor a melodia e ver o que a gordinha tinha pra dizer. Foi o que bastou pra me destruir. Eu andava nostálgica desde o dia anterior… achava que pudessem ser efeitos de uma TPM fora de hora, ou saudade do meu Morfeu que está passando uns dias no SPA da vovó, ou stress, ou fome, ou qualquer coisa. Mas Adele conseguiu desencadear uma reação que me abriu o peito. E eu duelei comigo mesma pra botar pra fora o que me perturbava.
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Assumi, entre muitas negativas e contra minha própria vontade, o que me incomodava e passou a incomodar ainda mais: assumi uma perda que eu nunca pensei que tivesse sido tão grande na minha vida, assumi um amor perdido que eu nunca assumi nem pra mim.
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Nessas minhas histórias de ser fria, ser durona, de o amor não existir, vi o amor passar debaixo do meu nariz e desprezei, ignorei completamente. E nesse dia dilemático que doeu até que eu cansasse e fosse dormir, eu assumi ele, revivi tudo mentalmente e sofri o que estava engasgado desde que eu perdi a perda que eu não sabia que havia acontecido pra mim.
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Não foi uma história de amor digna de filmes, mas eu a descobri minha, e me orgulho de ter tido forças pra assumir, mesmo que tarde, tudo o que eu senti. Melhor que isso: exorcizei, limpei o coração e percebi erros de trajeto que nunca tinham me ocorrido antes.
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Posso dizer que não é o tipo de história com final heroico, nem de happy ending. Mas eu consegui expor o que me aconteceu durante todo o período que me estremeci de paixão em uma carta quilométrica que enviei logo que coloquei o ponto final. Pedi que não me fosse enviada resposta. Não quero repensar essa história, ela terminou no momento que eu consegui tirar aqui de dentro meu hóspede.
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Vou transcrever alguns trechos da carta, vale a pena ser lida novamente (por mim mesma). Se leu até aqui, não espere nomes. Quem conhece a história, conhece. Quem não conhece, não precisa saber de quem se trata.
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“(…)Vou evitar as formalidades clássicas… nunca fui formal e nem vou ser agora. Sabes como sou, não preciso de apresentações.

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Hoje, por um acaso do destino, baixei uma música que te tirou de onde eu te mantinha trancado dentro de mim. Se quiser parar de ler, agora é a hora. Antes de eu soltar tudo que eu nunca soltei de fato… aquilo que eu mantive velado até agora que tomei coragem pra abrir meu peito.
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A música diz o seguinte:
‘I heard that you’re settled down
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That you found a girl and you’re married now
I heard that your dreams came true
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Guess she gave you things, I didn’t give to you
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Old friend
Why are you so shy?
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It ain’t like you to hold back
Or hide from the light
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I hate to turn up out of the blue uninvited
But I couldn’t stay away, I couldn’t fight it
.
I hoped you’d see my face and that you’d be reminded
That for me, it isn’t over
.
.
.
Never mind, I’ll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
.
Don’t forget me, I beg, I remember you said
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead
.
You’d know how the time flies
Only yesterday was the time of our lives
.
We were born and raised in a summer haze
Bound by the surprise of our glory days
.
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I hate to turn up out of the blue uninvited
But I couldn’t stay away, I couldn’t fight it
.
I hoped you’d see my face and that you’d be reminded
That for me, it isn’t over yet
.
.
.
Never mind, I’ll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
.
Don’t forget me, I beg, I remember you said
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead
.
Nothing compares, no worries or cares
Regrets and mistakes they’re memories made
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Who would have known how bitter-sweet this would taste
.
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Never mind, I’ll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
.
Don’t forget me, I beg, I remembered you said
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead’
.
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Eu imagino que a essas horas já estejas com tudo mais do que entendido, mas eu preciso falar… e como falar não dá de ser olho no olho, eu decidi escrever.
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A verdade que eu nunca assumi foi o quanto tu mexeu comigo desde o começo… de uma forma que nunca ninguém mexeu e, apesar do senso comum que isso soa, eu realmente te amei e nunca consegui te tirar da minha cabeça. Nem depois de tanto tempo.
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Não pensa que isso foi depois de esse ou aquele ocorrido. Não. Não tem nada disso. Foi antes disso que tu já tinhas te entranhado na minha cabeça, foi no começo,(…)… as tuas trollagens, tuas risadas. O conjunto da obra me ganhou. Eu, que sempre tinha sido tão fria e durona me vi amolecendo pouco a pouco por uma criatura (…) que eu nem sei daonde surgiu, contando uma piada idiota de “bom diaê” e que marcou. O DVD de asneiras com o Bátema e uma foto do primeiro churras no menu principal, as piadas idiotas em horas indevidas(…)bolão de lovely… bah, e as cantorias? Nunca mais ouvi My Immortal e Refrão de Bolero.
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Foi só besteira juvenil… mas mesmo hoje não esqueço da tua voz, da tua risada mais histérica, e nem do teu cheiro que eu pouco tive a oportunidade de sentir. Teu lábio marcado… ahahaha. Nem sei o que comi ontem, mas lembro cada detalhe teu.
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Acontece que o destino mandou e foi como tinha que ser desde o início. Não estou te pedindo nada, nem quero que me respondas, só quero me abrir e ver se me livro desse peso que eu carrego desde que cruzei contigo a primeira vez na FURG. Tu, as tuas bermudas de mil bolsos e o teu caminhar mancado por causa do long(…).
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Toda aquela pose de machona que eu levava, tudo mentira… quer dizer… mentira a partir do momento que eu percebi o quanto me movias. Eu tinha medo de te assustar, de fazer com que te afastasses de mim se eu um dia tentasse falar algo. E eu até cheguei perto de te falar aquela vez no lago (…) lembra? Mas nunca consegui. Não era por falta de coragem… era por achar que eu precisava te ter próximo, nem que fosse só como amigo.
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E aí veio o tempo em que (…) a distância pegou pra mim. Perdi a conta das noites que passei em claro escrevendo escrevendo escrevendo sem fim e aos prantos pensando uma maneira de conseguir tocar adiante as coisas. Não que eu fosse morrer, mas ficou mais difícil. Mas apesar disso, tu te mostraste leal a mim, não sumindo. E não sabes o bem que tu me fazias quando ias no departamento pra jogar conversa fora… e eu, sempre desajeitada, acabava correndo contigo (…). Eram uns poucos minutos, mas tu iluminavas meu dia com aquilo. E as idas ao Rosa nas sextas… era tudo o que mantinha meu pé no chão.
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Foi quando veio teu namoro, e eu nunca vou esquecer o dia que (…) te vi com ela, no fim de um beijo. Naquela noite eu bebi tanto, tanto, mas tanto… que era anormal pro meu padrão de bebedeira. Escrevi tanto, risquei, rimei, rasguei. Queria esquecer, queria afogar o que eu tinha visto, queria sumir, louca e bêbada pela rua. Só piorou. E foi aí que a minha coragem de tentar te dizer qualquer coisa se esvaiu de vez. Esgotou, acabou completamente. Zero XP.
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A partir daí eu me enlouqueci… bebendo, saindo, dando em cima de geral porque eu tinha que me vingar, eu tinha que fazer doer em ti como doeu em mim. Mas eu sabia que o poço era seco, que não ia sair dor de lado nenhum. Estavas feliz e eu não podia estragar isso com acessos infantis de perdedora. Meu jeito foi o afastamento. Foi quando eu achei [alguém] e achei que gostava dele e achei que era feliz ao lado dele. Foi a pior coisa que eu podia ter inventado. Mas eu toquei em frente, esperando te substituir. O que eu não sabia era que eu não ia conseguir.
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E o relacionamento andou,(…) e eu me separei (…) do canalha. E eu sofri mais ainda, e eu chorei mais ainda… e bebi mais ainda, não dormia, não comia e já quase não tinha mais vida. E não foi por ele toda essa apoteose de fiasco, foi por me deparar mais uma vez com a verdade de não poder te ter, e por me sentir (como agora) impotente perante a situação. Me feri, me incomodei na busca de um escape. E não deu.
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Em 2009 eu tive uma apresentação na qual eu falei sobre “Friendship”… e eu fiz um vídeo com o nosso grupo clássico de caos (…). O grand finale foi a última vez que cantei My Immortal. Um colega tomou tua posição ao violão e eu cantei. Foi a pior vez que cantei. A voz não saía e eu só queria chorar. A tua ausência foi a minha fraqueza e insegurança… não só a tua ausência ali do meu lado, mas fora da minha vida.
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Os anos se passaram, o nosso contato apesar de menos freqüente nunca foi cortado e veio a tua formatura. Tu, lindo, togado e discursando… me enchi de orgulho como se fosse algo meu. E chorei escondida no meio do público por saber que era ali que acabava de vez todo e qualquer contato. Estavas indo (…). Era game over pra mim, mais do que já havia sido desde 2006.
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E mais tempo se passou… não teve ano que eu não lembrasse do teu aniversário, mesmo não falando nada. Não teve noite que eu não tenha deitado a cabeça no travesseiro sem direcionar ao menos um pensamento, uma energia pra ti. Não teve poema que eu tenha escrito que não tenha um pedaço teu. E, apesar de toda essa dor que eu carrego escondida, muito me conforta saber que tens tido uma vida feliz (…).
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Não vou te alugar mais com tantas lágrimas que já proferi por aqui. A carta toda está permeada de “chorei” , “bebi” e “sofri”. Não quero que penses que o que senti por ti só me trouxe dor. Pelo contrário… era o que me estimulava a cada dia que eu pensava na possibilidade de te ver, ouvir tua voz, ver teu sorriso escancarado, nem que fosse só de passada e ouvir o que tinhas pra dizer, mesmo quando eu ficava nervosa que nem guria nova e virava café por cima de mim mesma na tua frente.
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Gosto de relembrar tudo o que passei do teu lado, mesmo sabendo que eu vivi um platonismo que eu mesma criei. E gosto de saber que eu não sou tão fria para sentimentos como eu sempre pensei que fosse. Fico feliz em ter tomado forças pra admitir pra mim mesma e, conseqüentemente, pra ti o que sinto. Acho que agora eu te exorcizo de vez.
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Estou descobrindo que ter te mantido trancado num quartinho num canto do meu cérebro não foi solução, tu sempre deu um jeito de escapar de lá e me assombrar, me lembrando que fracassei… o segredo era ter te desprendido de mim desde o início. Parece assunto de esquizofrênico, mas só eu sei como foi conviver com as lembranças de ti. Mas esquece… esquece isso tudo que falei aqui, esquece… eu só precisava mesmo desabafar, me abrir… pra dizer que eu nunca te esqueci, que tu nunca saiu da minha cabeça… nem do coração. Por mais difícil que tenha sido pra mim, agora eu vejo que abrir o jogo é menos trabalhoso do que lidar comigo mesma nas noites em que sonho contigo e acordo feliz como uma boba alegre. E não te preocupa, eu não vou “babar muito pelo Sawyer” (lembra dessa dedicatória no DVD?)… eu já babei demais foi por ti. E acho que estou cansada de tanto carregar esse incômodo em mim… não que tu sejas um incômodo, nunca foste. Mas as lembranças e a frustração se tornaram incômodos constantes. Há muito tempo.
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Já me estendi demais e nem sei se chegaste até aqui, mas fica tranqüilo. Eu vou bem por fora. Me formei, Saí de casa, fiz meu piercing, me tatuei… estou levando a vida que sempre quis. Sou professora de inglês, ganho bem, crio gatos, sou administradora do stephenking.com.br e até na Polônia eu já andei dando entrevista sobre Stephen King. Estou vivendo das minhas paixões. Só faltou uma… e dessa eu estou tratando de esquecer.
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Te agradeço, (…)… por seres quem és, por teres sido quem foste comigo em todas as ocasiões, porque mesmo quando foste mais troll nos deboches, ainda assim foste de uma gentileza bárbara comigo.
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Quem sabe um dia a gente se reencontra. Um beijo, dessa vez, o último. Te amo.
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