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Debora King

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11.22.63 (mal e porcamente traduzido, Novembro de 63) (Stephen King,2011)

Outro romance kinguiano que me fez fechar as páginas aos soluços. Porque sim, eu sou um fiasco. Mas era impossível outra reação, apesar dos pesares (o livro guarda suas imperfeições).

Capa da edição publicada no Reino Unido
Capa da edição publicada no Reino Unido

John Fitzgerald Kennedy, o herói da história americana que foi assassinado no meio do mandato, em 22 de novembro de 1963, num passeio em carro aberto. Morto por uma bala certeira pela mão de Lee Oswald. Na cabeça do povo norte-americano, se Kennedy houvesse concluído o mandato, os grandes problemas históricos da nação jamais teriam nascido. É o lendário deles, e não dá para debochar, já que acreditamos em justiça financiando corrupção.

King, nesta narrativa, traz Jacob (Jake) Epping que, no ano de 2011, é um professor de Inglês de meia-idade, que leva uma vida pacata com seu gatinho de estimação depois de encerrar um casamento turbulento. E sim, o cidadão-comum Jake é o herói americano.

Mas qual o ponto que liga o 1963 de Kennedy e os sapatos sujos de sangue de Jacqueline com o 2011 de Jake? Al Templeton, dono do Fat burger, no estágio terminal de um câncer, que convida Jake a ver algo na despensa de sua lanchonete, altamente conhecida pelo preço baixo e carne de origem duvidosa. Este “algo” é um suposto portal, ou fenda no tempo, que leva diretamente para 1958. Sabendo disso, o resto é só costurar.

Steve cria uma imagem do fim da década de 1950 e começo da década de 1960 impecáveis. Trabalho árduo de pesquisa, provavelmente. Traz cheiros, cores e sabores ao leitor, numa reconstrução minuciosa do passado. Não existem falhas de construção de imagem. Junto desta viagem louca no tempo, King rememora Derry, a cidade fictícia em que muitos eventos ocorreram, mas ele faz questão de acordar um em particular: o caso dos meninos, do bueiro… lembram? (quem leu S.K. sabe ao que me refiro).

Obviamente existe o trecho mimizento com paradinha para namoradinhas e muito sexo explícito, as mil e uma mortes injustas que nos remetem à cara do King rindo do leitor que sofre, os casos extraordinários dentro da vida comum… enfim, uma cópia legítima da vida humana, um passeio na galeria grotesca do que é o ser humano mesmo em meados de 60.

Lee Harvey Oswald é uma imagem cuidadosamente delineada ao longo do curso do livro, dando ao leitor, ao fim do livro,  a impressão de haver convivido com o ambiente familiar do assassino de Kennedy. Repito, a pesquisa do autor deve ter sido insana, porque os detalhes mais fundamentais batem com o que a história conta.

King fez um trabalho impressionante com 11.22.63. Nos últimos anos ele tem apresentado uma escrita mais densa, mais madura e que mexe muito mais com o sentimental do leitor do que os tempos de horror semi-gore. Se O Cemitério aterrorizava o leitor dando noites de pesadelos, a escrita atual, como 11.22.63, dá dias e mais dias de incômodo emocional, bem como foi Under the Dome. Claro que existe, como em qualquer romance sobre viagens no tempo, uma lacuna de perguntas sem resposta, isso foi uma falha grave, muito embora o romance se justifique sozinho e os leitores mais arrebatados deixem passar os erros.

Cabe que se diga que não, o passado não deve ser mudado, ele é obstinado… e que bom que é assim. A visão kinguiana para um 2011 depois de uma mudança crucial numa das linhas do tempo é a pintura de um ka merecido pela humanidade de uma forma geral, mas ainda assim não perde sua brutalidade. Não posso entrar em detalhes para não estragar a leitura alheia, mas acho que eu preferia o 2011 pós sobrevivência de Kennedy (he he).

O fim do livro é digno de Sandra Bullock e Richard Gere rodando abraçados na neve, em um longo beijo. É uma escrotice sem fim. Mas como King determina sempre, o melhor da viagem é o passeio, não a chegada. E, de fato, mais uma vez ele me concedeu um passeio estupendo, digno de aplausos em pé. É a consagração de uma literatura acessível e que mexe com o imaginário e o emocional. Mas aquele finalzinho, hein King??? Puta que pariu… Tabby está caindo no padrão de qualidade na hora de te liberar a edição dos livros!

Recomendadíssimo a todos, Novembro de 63  é um romance de ficção científica/policial/romancebabaca/sexoexplícito/pós-apocalíptico que prende os olhos que não sentem preguiça ao passearem por um calhamaço daquele calibre.  E, antes que me esqueça, vi muito de A Torre Negra ali. Aquela coisa de ka, ka-tet, a obstinação do tempo e do destino, as coisas que não podem ser mudadas, os retornos ao zero.

Longos dias e belas noites, pistoleiros!

Até o próximo livro.

Comentário maldoso: A Suma de Letras precisa demitir tradutora e revisor. Que trabalho de merda. Muitos leitores que estarão lendo a versão brasileira, acharão vários trechos confusos, e com razão, pelos erros de tradução que a revisão não percebeu. E mais, quem já leu no original vai sentir a diferença em algumas sutilezas que não causam impacto algum na versão brasileira, mas que sim, no resultado final, “amaciam” coisas que não deveriam ser amaciadas. Cogito seriamente enviar um e-mail para a Suma, catalogando os erros encontrados por ali. Falta de profissionalismo tem limites, estamos falando de uma obra literária.

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MARINA – Carlos Ruiz Zafón

Comecei a leitura de Marina não dando nada pelo livro… meu desprezo começou na compra. Capa bonita, sinopse inconsistente, acabei colocando ele nos rols de livros bobinhos para ler em filas. Dei total descrédito. Maldita seja eu… o livro é ótimo!

Iniciei a obra em duas filas de caixa e o livro me abocanhou, terminei o livro em um engarrafamento, abasbacada de fascínio.

O livro Marina tem um clima gótico, obscuro, cinzento e, por vezes, lúgubre aos extremos. Notam-se nele algumas contradições narrativas que se explicam ao final. O escritor é um artista que se contrapõe a um de seus personagens: enquanto o pintor desenhava com luz, Zafón desenha com a escuridão. Um espetáculo cuja luz se faz por Marina em meio às trevas.

Os intertextos permeiam o texto desde um ímpeto de Prometeus a, de fato, uma síndrome de Frankenstein anunciada. Não existe bem ou mal nas páginas de Marina, há sim, um amor incansável pela natureza da felicidade humana em si ali.  E mais amor… amor inominável e de forma bestial, amor que nem o mais humano dos seres poderia imaginar, não fosse pelas mãos de Zafón.

“Marina” tem verdades e vontades que se entranham no leitor. Questionamentos de vida e morte além dos horizontes possíveis e padrões incomuns para demonstrar a forma visceral de certas redes tênues que igualam os humanos. O teor dramático do livro se dá, literalmente, de forma monstruosa, com tons marcantes de “O Médico e o Monstro”. E a tragédia beira o sublime de quem abraçou sua loucura abertamente nos entremeios de uma Barcelona desconhecida.

Caio F. dizia que abraçássemos nossa loucura antes que fosse tarde demais, aprendi com “Marina” que o ‘tarde’ na loucura é o fim da clareira, não a perda. Portanto, se há pulsar, abraça tua loucura. É ela que te sustenta.

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Chega de falar sobre o Kevin

Precisamos falar sobre o Kevin

 

O início do livro é o supra sumo da chatice, do egocentrismo e da futilidade de Eva Khatchadourian. É um livro pra quem aguenta um narrador enjoado que só olha para o próprio umbigo e que faz com que se justifique o fato de Kevin ser um filho problemático e distante. Porém… Eva se liberta dessas amarras tão logo decide abrir o problema por completo. Em cartas ao marido aparentemente ausente, ela deslinda o que viu da história do filho e não compartilhou com o marido nos anos de casada.

O interessante do livro ser em primeira pessoa é o fato de nos colocarmos na situação familiar da protagonista. Apesar de boa parte da balela dela ser completamente desnecessária, a parte realmente relevante é marcante. O desenho da personalidade de Kevin é bem traçado pelas atitudes dele, um menino difícil de lidar, sem amor a nada, que parece ver no deboche e na provocação maneiras de atiçar seus pares. Como um analista da raça humana às avessas, Kevin parece ver (desde cedo) prazer no incômodo e na dor alheia.

Há de se convir que o spoiler da contracapa da edição brasileira é crucial para matar qualquer surpresa que possa existir. Ao entender que Kevin é um psicopata, qualquer atitude dele, a qualquer momento do livro, é suspeita e transparece a natureza cruel de uma criança vil, sem quaisquer afetos. Apesar da anestesia de ter o enredo entregue, ainda assim existe surpresa. É impossível concluir o livro sem levar consigo o choque final de Eva. O choque da mãe que chega em casa consciente da própria histeria depois de saber o que o filho havia feito na escola, querendo achar no lar só um colo da família que lhe restaria.

De certa forma, Eva previra a desgraça que pairava sobre o teto dela, mas não tinha voz para ousar qualquer atitude que pudesse pausar a tormenta que se avizinhava. O marido julgava-a cruel por apontar culpas para o Kevin, achava que ela usava o filho como escudo para os próprios erros. Mal sabia ele que, depois de Kevin ser preso, Eva pagaria o preço de culpas que adquirira sem que tenha cometido qualquer crime.

Célia foi uma tábua de salvação para Eva, que não conseguia ser mãe como gostaria. Eva fez por onde engravidar sem que o marido desconfiasse, depois de muito haver tentado entrar num consenso a respeito de um filho além de Kevin. A família constituída era tão estranha que o casal fez um trato: Kevin pertencia ao pai, Célia, à mãe.

Não é de se admirar que o provável estopim para o ato final de Kevin pudesse haver sido a própria família. O adolescente aparentou mudança de postura após entreouvir que os pais estariam separando-se. NÃO. Não foi isso. Ele premeditou até a culpa de cogitar uma separação. Premeditou tal qual pensou em datas e detalhes primordiais do massacre em sua escola.

E quando questionado, dois anos depois, respondeu à mãe que, no começo, sabia o que o motivara ao que fez, mas agora…

 

E o que restou a Eva quando viu o monstro que seu filho realmente era (talvez sua última solução) foi amá-lo com a incondicionalidade do amor de uma pietá… quando toda uma sociedade decidiu que ela era digna de hostilidade como se houvesse executado o crime pelas mãos do filho.

a razão do absurdo

Sonho em ser escritora desde que aprendi a escrever. AINDA sonho em ser escritora. Sonho em me lançar, em vender todas as loucuras que a minha mente regurgita de vez em quando.

Primeiro aprendi a escrever, depois aprendi a me jogar de corpo inteiro nas letras que a minha destra traçava… De começo era onde eu soltava meus monstros. Um não materno a uma festa, uma paixão platônica nunca correspondida, o ódio por uma professora, as vontades, os sonhos… e a escrita saltou às coisas que não existiam. Foi quando vi que minha imaginação me tornava alada.

Não sou única nisso, certamente no momento em que lês isto, existe alguém escrevendo em qualquer lugar, expurgando os demônios internos em papéis, em telas de computadores, nas paredes da própria casa, na pele. E, perto de mim, existem vários amigos que dividem o gosto pela escrita e o sonho da publicação. Do tipo de louco que cria poesia no ar depois de beber umas e outras, porque a capacidade de redigir abandonou o corpo.

Pra mim a razão do absurdo está em ver razão no absurdo que é criar um mundo de palavras. O objetivo de mostrar esse mundo ao mundo concreto, palpável. Colocar razão real em um mundo imaginário é a razão do absurdo. A razão do irreal, do surreal, do impensável. Meu absurdo, minha razão.

Mas existem outras razões de outros absurdos e toda essa verborragia é pra apresentar aos que me acompanham o livro que um amigo estará lançando agora em novembro. Acompanhando o nome que o blog ganhou por acaso, o livro se chama A Razão do Absurdo, com contos inéditos e um e outro contos do blog que botou o Paulo na rua.

 

Ironicamente, o gurizinho da capa me lembrou o Paulo na época que ele “escapou” do mestrado… ironicamente, claro.

Ao ver a foto das caixas dos livros abertas pelo Paulinho, meu coração se derreteu. Vi ali meu sonho, realizado nas mãos de alguém por quem guardo um carinho enorme. Me realizei junto, só de ver. E quero, de todo meu coração, que o Paulo suba degrau a degrau esse desconhecido que é o mercado literário. Precisamos de sangue novo, de escrita nova, de universos de papel jamais pensados.

O Paulo é um cara da minha idade, formado em Letras, agora mestrando em Literatura. Está se lançando oficialmente na segunda semana de novembro. Será o primeiro livro de muitos!

Quem se interessar, só fazer contato, o livro custará 15 reais (mais frete para quem é de fora). E em breve teremos A Razão do Absurdo em uma promoção do blog Debora King e no próprio A Razão do Absurdo.

Que venha o lançamento então!

Ah, e  caso o cara fique famoso aos extremos… Ele já tomou cachaça no MEU microhome 😉

Um dia – David Nicholls

Um Dia foi mais um empréstimo de alunos. Como já é habitual, na maioria das vezes os livros não são tão bons assim… mas eu sempre jogo limpo com os meus “emprestadores de livros”. Daí que nesses empresta-empresta, me veio Um Dia, de uma aluna que já me emprestou vários outros livros antes. No último empréstimo não tínhamos sido felizes, o livro era um romance mimimi da pior espécie, e ela achou graça da minha careta ao devolver o livro pra ela. Mas desta vez ela acertou em cheio.

Como é conhecido, tenho horror a romances, sejam eles mimizentos, sejam eles sérios. Romance é uma coisa que não mexe com meu imaginário e, ainda por cima, me entedia. Não foi o caso de Um Dia. Logo na primeira passada de olhos eu me envolvi. Não sei se era efeito da TPM que me deixou chorona este mês, não sei se foi porque a história redesenhava um passado que vivi… sei lá, mas me prendeu e emocionou do começo ao fim. Lenços e mais lenços de papel pra todas as lágrimas e suspiros. Sem piada. E quem rir verá minha vingança na próxima TPM. Um Dia trata do usual, e talvez seja o fato de ser tão comum que encante tanto. A vida real mexe com os leitores.

Nada mais é do que uma guria bobona, sonhadora e desarranjada que, na noite de formatura, tem um sexo legal com o carinha pop da faculdade, se apaixona e ele é um canalha suuuper estereotipado, mas que encanta ela de uma maneira diferente dos demais caras com quem ela já saiu. O caso clássico do cafa conquistador, o cafa legalzinho, bonitinho e bom de papo. O cafa que trata as feinhas bem (porque ele, por dentro, não é tão mau assim) e depois some porque o tempo e a vida fazem isso por si mesmos.

David Nicholls delineia bem as personalidades dos dois personagens principais, Emma e Dexter (“Em e Dex, Dex e Em”), fazendo com que as loucas da TPM se afeiçoem a eles. Os capítulos são distribuídos nos anos seguintes à formatura. Deixe-me explicar: depois do sexo lindo, da noite maravilhosa, aquele lero lero todo, cada um teve que tomar seu rumo porque a vida é assim, e depois das formaturas sempre vem as separações pra que cada um possa trilhar seu caminho. Foi uma única noite, mas o contato deles não se perdeu, e a cronologia do livro segue um tempo linear, saltando de ano em ano para os ocorridos de 15 de julho, dia de São Swithin. Claramente, o foco do narrador não é mostrar os fatos mais relevantes, mas fazer uma panorâmica do desenrolar da vida do casal de amigos.

Em e Dex se tornaram amigos, apesar de o enredo deixar meio visível que Emma sempre levou mais sentimentos consigo do que Dexter, que era um babacão clássico. Dividiam entre si suas histórias amorosas, seus casinhos, como amigos mesmo. Mas eu não sei se fui eu que tomei as dores, ou se realmente aquilo incomodava Emma. O fato é que o contato deles era constante, até chegar o momento em que a amizade se tornou um tanto insustentável por conta da abobadice de Dexter e a acidez de Emma. Obviamente que, com o passar dos anos, as personalidades foram se fossilizando, como é natural do ser humano, e cada um fez sua carreira como dava. E, talvez, a fase de Dexter apresentador de TV foi a que mais envenenou a amizade dos dois.

Mas como em todo romance mimimi, depois de uma boa tormenta por conta de uma crise na amizade que desencadeou brigas, do casamento/paternidade de Dexter e da viagem de Emma pra Paris pra escrever seus romances infanto-juvenis, eis que vem a bonança…e os dois ficam juntos. Yay! E ela morre. E o livro não acaba depois que ela morre. E quem está lendo se desfaz em lágrimas pensando: MAS COMO ASSIM, PÔ???

Eu, aos prantos e com mil lenços no cestinho ao meu lado, pensei: ah, é só uma trolladinha, daqui a pouco o autor bota a babaquice “mas era só um pesadelo e nada disso aconteceu”. NEGATIVO. Ela morreu e ficou “morrida” até o final. E daí eu entendi que o autor quis foi mostrar como é a vida. Uma desgraça, na linha Cidade dos Anjos. E como é o ser humano também, que tem tudo o que precisa logo ao lado e faz cu doce até cansar e, quando decide investir no que realmente lhe traz felicidade, o outro vai lá e morre porque o tempo é implacável. Ah, e a lição mais importante de todas foi: Uma vez cafa, forever cafa. Dexter termina o livro com a gerente do café dele, aquela que ele passava umas cantadas nos poucos meses em que foi casado com Emma.

Indico a leitura, bem light em termos de vocabulário, o autor é bom enquanto escritor. O livro, em si, é um bom remédio pra TPMs chorosas. Deixa qualquer coração em frangalhos. E, sem piadinhas, acho que tem tudo pra se tornar um clássico no cinema na linha Cidade dos Anjos (que eu tenho horror) e Amor Além da Vida. Mas não me convidem pra assistir, já estou legal de Dexter canalhão e Emma retardada.

Rose Madder (ou Norman Madder?) – Stephen King

“Um voar de páginas insano” seria o que eu escreveria caso fosse uma jornalista famosa que faz reviews babacas de best-sellers para jornais de grande circulação. Mas como não passo de uma professorinha de inglês e blogueira fracassada, darei minha leitura simples e salve-se quem puder.

Rose Madder foi parar em minhas mãos em uma semana que me forçou a querer uma mulher kinguiana que fosse, no mínimo, bipolar, psicótica e bem – mas bem mesmo – psicopata. A investida não foi muito feliz mas, ainda assim, me deu boas horas de tensão e leitura frenética embalada por um mantra que me convencia que – eu sou Rosie, e Rosie muito real.

O livro é um confronto forte com a realidade de uma mulher que sofria todas as formas de violência de que seu marido dispunha para puní-la por erros que ela jamais cometeu. Rose, que vem a tornar-se Rosie quando se liberta, representa ficcionalmente a força de várias mulheres reais que são violentadas e que tiram forças de coisas que, a uma mulher comum, parecem minúsculas e acabam conseguindo se retirar do ambiente do lar opressor.

Rose, depois de aborto, pulmão perfurado, abuso sexual com raquete, dentre outras formas absurdas de violência e perda de sangue, tem sua reação desencadeada por uma única mancha de sangue que, de acordo com ela, tinha o tamanho de uma moeda. Foi o que botou ela “na linha” depois de anos e anos de um casamento que não fazia com que ela fosse feliz.

King desenha perfeitamente as dores emocionais que uma mulher que é tão ferida carrega consigo e, de quebra, mostra o psicológico do homem doentio que acarreta todo um trauma na esposa que está sob seu jugo. É o ser humano se desumanizando em um animal irracional que justifica legitimamente sua crueldade por não entender o que faz de tão mal. Parece confuso, eu sei. Mas pobre Norman, ele não entende que tipo de coisa tão ruim ele pode ter feito para que a mulher dele tenha fugido.

Mas Rose não cede e é implacável com o passado. O livro surpreende a cada nova descoberta. Rosie é uma mulher nascendo pra si mesma, pra vida e pra sociedade. Cada novo detalhe descoberto é um grande reinício pra uma mulher em fase de reabilitação emocional. E este é o foco do livro: mostrar cada bote salva-vidas a que Rosie se agarrou na fuga de Norman Daniels, o marido que nunca deixou faltar nada a ela, só sanidade.

 

É melhor ser implacável com o passado. O que importa não são os golpes que a gente leva, e sim aqueles aos quais a gente sobrevive.

(Stephen King, Rose Madder)

 

 

 

As Sete Sombras do Gato – Jeanette Rozsas

Por trás da capa do que parece mais uma historinha boboca para adolescentes mijões, Jeanette Rozsas descortina uma história esférica de um tom sombrio e tenso que, por vezes, me fizeram acreditar na Literatura Brasileira de Horror.

As Sete Sombras do Gato é, a olhos nus, um romance policial que parece se perder em um labirinto. Pra leigos, pareceria que a autora em algum momento perdeu a sintonia e não sabia o que fazer até ir tomando o rumo do final do livro. Mas pros que de fato entenderam, as sete sombras de Lúcifer, o gato preto, foram bem desenhadas à luz de dias cinzentos e ao som de violoncelos que choravam melodias de  Bach. E em um gênero difícil de categorizar por ter traços de suspense, traços de terror, um pouco de intimismo, um certo noir e até mesmo amor romântico.

O livro é permeado de referências a outras obras, Poe é uma presença muito bem marcada na escrita da trajetória de José Josafá, o tira metamórfico que protagoniza a busca por uma razão depois da investigação de um suicídio com requintes macabros. O frio, o céu constantemente nublado, os dias sem sol, cemitério, violoncelos, Europa, chuva, sonhos estranhos… inúmeros elementos que se unem a um padrão estético voltado senão para o terror, ao intimismo de um suspense que não se abre escancaradamente nem ao final da história.

De leitura simples, mas com toques femininos que frequentemente lembram a escrita de Clarice ou Virginia, As Sete Sombras do Gato desenha as personagens mais pelo seu interior do que pelo exterior, o tempo é cronológico com constantes feedbacks breves que compõem a esfera da delegacia, com seus inúmeros relatos investigativos. Isso sem comentar no mito da presença feminina como tentação, motivo que faria com que os homens se perdessem dentro de seus próprios instintos.

Além do mais, Jeanette soube como usar Bach e os violoncelos em sua obra. Se a intenção dela era uma homenagem ao famoso músico, então ela conseguiu uma homenagem primorosa. Que discorde de mim quem conheceu Fausto, sua mansão e as vozes de suas várias noivas musicistas que refaziam toda a perturbação artística que apenas um músico como Bach seria capaz de traduzir em notas. Seres humanos prisioneiros de uma obra, quem conceberia algo assim?

Recomendo a leitura. Um livro simples, mas que por vezes confunde o leitor, de leitura fluida, personagens bem desenhados em toda a sua dubiedade  e história que, de vez em quando, mete um medinho nervoso. Este é As Sete Sombras do Gato e todos os seus duplos, triplos, inúmeros… sentidos e sombras.

Não entro em maiores detalhes de enredo porque penso que a mesma curiosidade que me levou à leitura dele deve ser o que deve atiçar aos demais leitores. Recomendo ainda mais a “leitura” dele em audiobook, o qual conta com as melodias de Bach ao fundo e acabam potencializando os efeitos do livro a cada capítulo ouvido. Música clássica, assim como boa leitura, nunca devem ser demais.

Homens que não conseguem amar – o bote salva-vidas de quem se afogou no amor torto de um fóbico

Quando a gente pensa que já sabe tudo sobre os homens, vem Steven Carter e Julia Sokol para nos mostrar que não é bem por aí. Há um grupo especial de homens que não são capazes de enfrentar um compromisso, os tais fóbicos.

Não que as mulheres não sejam inteligentes ou suficientemente decentes para eles, simplesmente eles não conseguem lidar com a ideia de compromisso. Respeitando o grau de compromisso e o grau de fobia, os fóbicos estão aí pra destruir corações. E “Homens que não conseguem amar” aparece justamente no momento em que a vítima de um fóbico está quase afogada num caos.

Por experiência pessoal, posso dizer que li este livro no momento certo, pois não conseguia entender certas atitudes do cara com quem eu estava saindo e, sendo bem sincera, quase entregando meu coração. Haviam coisas nele que eu não conseguia entender de forma alguma, mesmo com toda a experiência que uma mulher com a minha idade acaba tendo, seja por vivenciar seus casos, seja por observar os casos mal resolvidos de amigas e amigos que se envolveram com os homens errados.

“Homens que não conseguem amar” me levou à superfície de um mar onde eu iria me afogar… todo o carinho e atenção que só um fóbico pode dispensar quando se identifica com alguém. É o tipo do livro que te dá os tapas na cara necessários pra te fazer acordar de um transe. Verdades extremamente incômodas, soluções nada fáceis e uma sinceridade dolorida pra quem não quer acreditar que o príncipe encantado é o sapo mais cururu da beira da lagoa.

Terminada a leitura, o choque maior é saber que a solução pro tipo de relacionamento que o dito grupo proporciona é nada mais nada menos do que a quebra total de qualquer espécie de vínculo com o cara em quem se depositou toda uma expectativa. Mas é neste mesmo momento de descoberta da solução que se percebe que a separação já se deu, e nem nos demos por conta…afinal, o fóbico fugiu! (e se não fugiu está fazendo por onde tomar seu rumo)

Há que se considerar também que o livro dá instruções de como lidar nestes casos de homens com fobia a compromisso. Além da questão da separação como algo que certamente ocorrerá, vem o ombro amigo dos autores que sabem o quanto vai ser difícil pra mulher lidar com isso quando tudo acaba. Some-se a isso o fato da isenção da culpa da leitora, pois fica evidente que a culpa em caso de relacionamento com esses homens não é completamente da mulher. (parcialmente é SIM, por não saber identificar o canalhão com quem ela se meteu)

Obviamente haverão questionamentos ao estilo “qual o grupo de mulheres é mais propenso a cair nas mãos de um cara com esta fobia?” mas o foco do livro em si não é fazer um painel da mulher que cai na conversa de um fóbico e sim, mostrar como o fóbico acaba conquistando a mulher que deseja, independente do grupo em que ela se encaixa.

Acredito que “Homens que não conseguem amar” presta um favor ao sexo feminino, é quase um manual de instruções dos homens que fogem sem deixar vestígios. Acho até que posso dizer que este é o manual do cafajeste, pois pelo desenho psicológico, se não são cafajestes, não sei então como eles são.

Não dá para sentir pena destes homens, mesmo com a consciência de isso ser uma fobia. Quando a fobia de uma pessoa engendra crueldade para com outra pessoa, os limites da pena e do respeito são rompidos.

Sentimentalidades Kinguianas – The Dark Tower Saga

   Mais de quatro mil páginas e quase 3 anos depois, no pôr-do-sol deste sábado… eu terminei a leitura de A Torre Negra. Não acho que seja uma notícia a ser compartilhada com ninguém em especial. É uma conquista tão estupenda para mim que penso que ela deve ficar guardada no meu coração, não ser divulgada como uma notícia a ser diminuída pelos olhos e ouvidos de outras pessoas. O êxtase e o vazio psicológico/emocional que isso me causa são tão imensos que quase ouço a canção da rosa a me puxar.
     Não é fechar um livro, é fechar 7 volumes de uma história, fechar as portas de uma jornada, encerrar inúmeros mundos além deste entre palavras que, se soltas, talvez não rendessem nem um dicionário escolar, dada sua simplicidade. É chegar ao fim de uma jornada que, inquieta, não fica inerte dentro de folhas, ela se une ao leitor como mais uma peça de um ka-tet invisível. É incrível ter sobrevivido à grandeza da Torre Negra e à implacabilidade do ka, essa força imensa.
     Não é uma jornada fácil, os desafios são muitos. Tanto para leitor, quanto para narrador, personagens, tudo. São muitos mundos que convergem para uma única coisa e o que une estes mundos é um elo só: A Torre Negra, os 7 livros que narram essa busca e que levam o leitor pela mão por lugares jamais imaginados por uma mente preguiçosa. Como se Stephen King fosse apenas o mediador de todos os pólos, a história flui da mente dele para a mente do leitor, como se o “toque” fosse algo  mais corriqueiro do que se possa crer.
     Incontáveis vezes dormi de coração tranquilo sabendo que o ka-tet dormia e respirava pesadamente ao longo do caminho.
     Não raras foram as ocasiões em que me esvaí em tiros, matando com meu coração.
     Perdi a noção das vezes que precisei forçar meus olhos marejados além do horizonte para ver se haveria um inimigo à espreita.
     E por quantas vezes eu maldisse o ka, essa roda geradora de uma existência que eu não posso controlar?
     As dores, os risos, as palestras… cada gosto, cheiro e sensação ao longo do caminho, costurados pela ansiedade de um ka-tet que não era meu.
     Mergulhei em um par de olhos azuis cravejados de marcas que traziam consigo o peso da  idade do mundo e senti as dores de um parto indigesto que consumiria uma maternidade doentia impensável.
     Sofri duas mortes precoces e revivi depois de um vício que quase me custou a vida. Aprendi que o amor não se mede pelo tamanho do corpo mortal que é deitado à terra perante a morte. O ka ensina o poder do amor de uma forma trôpega, às vezes.
     Eu, Debora, terminei minha jornada enquanto outras tantas criaturas abrem o primeiro volume pela primeira vez. O meu ciclo se fechou… mas milhares de outros estão se abrindo enquanto deito aqui minhas impressões de tudo o que vivi entre as páginas desta saga. Sinto a dor do adeus e aquela saudade boa que nos faz lembrar todo um percurso quando nos vemos aos pés da majestosa Torre.
     O sofrimento final não é privilégio apenas do protagonista. É a dor de muitos em inúmeros ondes e quandos. É dor que ultrapassa o calibre das milhares de páginas. Roland, eterno peregrino rumo à Torre Negra que por essas horas cruza novamente o deserto em busca de respostas e de uma predestinação, como um eterno salvador do elo que equilibra todos os mundos. E quem teria mais coração que ele para encarar tudo isso?
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     Longos dias e belas noites, pistoleiros. Que o ka seja gentil com vocês.

 

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