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Debora King

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Inéditos 2014

Convalescer

Estou trancado em mim

Pensando em você

Sei que um dia

Eu vou enlouquecer

                                   (Jonathan Corrêa – Desespero)

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Amour (2012)

     Que filmes de amor não me comovem, isto não é lá nenhuma novidade… Continuar lendo “Amour (2012)”

Pílulas de baladas

     Não que as baladas sejam meu refúgio favorito, mas Continuar lendo “Pílulas de baladas”

Os Pobres Paupérrimos

Salvas as exceções, o Pobre Paupérrimo é aquele cara Continuar lendo “Os Pobres Paupérrimos”

Desventuras de uma Vênus Virginiana

      Não bastasse o azar de nascer com um coração que calcula e racionaliza ao invés de sentir, nasci com um coração que só atrai o que não vale nada. Continuar lendo “Desventuras de uma Vênus Virginiana”

lâmpadas de sódio

     Sob o céu noturno que se coloriu de laranja eu vejo uma história sendo remontada e a pontada lancinante que me percorre é nada além de memórias que se blindam de nostalgia, para não se desfazerem mais. E os sons frágeis que me circundam me transportam para uma noite debaixo deste mesmo céu, quando as estrelas nos miravam numa recíproca cíclica e minha mão na tua encerrava o frio que poderia nos abraçar. Éramos intransponíveis, uma força transcendental única, e éramos somente nós, um, perante o vento imperdoável e o som do mar era o único a ousar nos interromper… sinto saudades de ouvir a nossa respiração tão compassada quanto nossos passos e os risos.  E o meu medo da perda já inexiste.
     A fragilidade que me abateu se apartou de mim quando eu optei por novamente dar as costas para o que me moveu. Se apartou de mim a fraqueza quando eu decidi que a peregrinação se faz melhor quando se faz só. Uma respiração, um par de mãos. Apenas um coração. E a coragem de olhar pra cima e rever as estrelas sem outro calor, me tornando vento com o que restou do som do mar dentro de mim. Eu me dissolvo, me disperso e me encontro una. E me basta a independência, meus passos já são impacientes demais e não encontram o compasso que um dia foi compartilhado. A vida é uma, bem como eu. E o caminho é sem volta, desvia os teus atalhos, pois agora me restou a linha reta que eu mesma projetei.
     Duas solidões nasceram esta noite, debaixo das lâmpadas de sódio que já foram a iluminação de uma história. Fecham-se as cortinas, varre-se o palco. Acabou o figurino, o script se auto-destruiu e o improviso agora orquestra o caos do que um dia foi monotranscendência. Junte seu figurino, apague a luz ao sair… esqueça as estrelas e deixe a mão no bolso, o frio é grande nestas noites de vento. E os meus olhos são o mar.

Categorizando os chatos

Esta série não tem compromisso com a verdade e nem com uma visão livre de estereótipos. Muito pelo contrário, os estereótipos serão a base estrutural para relembrar aqueles espécimes que rodeiam nosso dia-a-dia, o que inclui a ti, querid@ seguidor(a) do blog. Afinal, todos somos chatos em algum nível.

A série vai ao ar semanalmente ou quando o tempo permitir.  Para acessar as postagens relacionadas, é só linkar na categoria, ali no cantinho.

17 de maio e o orgulho gay

     Antes que eu deixe passar em branco por ser uma desligada de datas, cabe que eu exponha o que penso.

     Como mencionado em outras ocasiões, eu ODEIO essa ideia de datas para recordar grupos oprimidos. Penso que todos os dias são dias para respeitarmos nossos iguais. Sim, IGUAIS. Somos todos sacos de carne, sangue, vísceras, ossos e outras gosmas que apodrecem e viram pó no correr do tempo.

Mas quanto à temática, costurei minha vida de amigos hostilizados por não amarem do jeito que se diz certo. Amigos, familiares, colegas, desconhecidos que viraram razão de ser. E eu nunca entendi bem toda essa coisa de amar certo ou amar errado… mais que isso, eu nunca entendi por que diabos as pessoas se preocupam tanto com a vida afetiva dos outros!
Eu mesma optei pelo celibato e pela solidão, e as pessoas não conseguem aceitar isso. Por eu ser gorda é que eu estou sempre solteira, entendeu? Mas não é isso… só aparento a solidão porque, na realidade, sou lésbica e tenho medo do que a sociedade pensaria. Teorias inventadas pelos outros que tornam para os demais muito mais fácil aceitar que alguém prefere amar o silêncio e a si mesma do jeito que é.
Penso que o mesmo vale para as pessoas que não amam dentro da forma padronizada de Adão e Eva. Nascemos assim, qual é o problema? O nosso amar muda a vida de quem? Quero conhecer vários corpos, não é o meu corpo que eu estou usando para isso? E se eu optar por ser poligâmica, qual o problema? E se eu optar pela monogamia, é o teu corpo? E se eu optar pela ausência alheia no meu corpo, eu sou menos que alguém? Meu corpo e meu afetivo, quem comanda sou eu. E se eu quero uma mulher, um homem e uma travesti, que delícia, vamos curtir a vida que é uma só! Cuide do seu amor ao invés de observar o meu.
Depois de uma vida vendo amigxs sendo varridxs para fora de casa pelos pais, amigxs que já apanharam, amigxs que já foram hostilizadxs, estupradxs e toda a sorte de coisa desumana que pode ocorrer, bato no peito com orgulho pra dizer que são as pessoas mais adoráveis que conheci. Eu nunca chorei na presença delxs, a não ser de rir, mesmo nas piores horas eu sempre notei um amor imenso ali… um amor que dificilmente se encontra nas pessoas que se encaixam bem nos padrões opressores.
Não existe preconceito pior do que a segregação.
Penso nxs filhxs que quero ter, penso nas vidas que poderão ter, penso nas possibilidades infinitas de felicidade disponíveis neste mundo que ainda é lindo. Mas a cada vez que penso em sexualidade, me dói pensar que um bebê homo vá nascer com um alvo apontando para a sua cabeça, dizendo: pode me xingar, pode me bater, eu sou homoafetivx. É crueldade demais.
Me dói fundo quando ouço as pessoas falando dos gays como o viadinho, a sapata. Me dói quando eu vejo algumx alunx receber pelas costas olhares de deboche. Me corta a alma ver HUMANOS sendo tratados com uma sinceridade e uma recepção superficiais por pessoas que não têm preconceitos, mas…
Me dói, mas me dói nem a terça parte do que eu sei que meus amigxs sentiram. Eu sei que foi mais fundo, eu sei que as marcas e as cicatrizes vão lembrando tudo o que se passou… mas eu também sei que tem gente que xs ama com força. E não vai ser ainda nessa vida que o amor vai ser livre… o ser humano não nasceu pronto pra entender o amor. Então vamos amar como sabemos e do jeito que pudermos enquanto a nossa partida não vem.

     Amo a cada um de vocês, e no momento que me identifico com umx desconhecidx do “mundo”, eu tento me aproximar. Tenho um carinho imenso por pessoas que têm a coragem de vocês. Eu queria ter essa fibra toda.

     E a quem ainda não externalizou porque a opressão não permite isso: respeita o teu tempo, não acelera o teu processo, as larvas não se transformam do dia para a noite e o abrir de asas para a homoafetividade é um renascer de fênix. Toma força, toma fôlego, e deixa o amor te guiar. Não deixa o ódio apagar a tua luz. Não existe o errado e nem o imperfeito.

Eternal Sunshine of the Loneliest Minds

     Ontem, depois de perder o sono na madrugada, acabei revendo a única historinha de amor que me comove. E Eternal Sunshine of The Spotless Minds sempre é um aprendizado novo.

     Vantagens da solidão: perder o sono, pegar uma bebidinha, assistir um filme em plena madrugada fria sem o stress de acordar alguém ou ter que se preocupar se o filme é de gosto comum, se o volume está ruim, se ele achou o filme ruim e quer mexer na minha calcinha enquanto eu quero ver o filme.

     Engraçado que hoje pela manhã, vendo a movimentação do pessoal conhecido, percebi que anda uma febre de solteiros saltitantes, alegando o quanto é bom ser solteiro, ou espalhando as vantagens deste regime afetivo. Será que o frio chegando está deixando o pessoal mais “pseudo rebelde” ou de fato estão se convencendo do quanto a solidão nos cai melhor?

     Estou há 6 anos isenta dessa desgraça que se chama vida compartilhada. Já virei perita em analisar a carência alheia e olha… de fato, fico feliz quando sou vista pelas pessoas que me conhecem como a “solteirona”, ou quando desconfiam até da minha sexualidade. Sinceramente? Acho que ainda vou continuar casada com essa solidão por muito mais tempo.

     Não acho interessante aquele processo todo da entrega, do abrir-se para o outro, de tudo o que se faz em prol de uma coisa que vai acabar ali adiante e sempre de uma forma escrota, criando dois inimigos ou dois desconhecidos. Ele tinha pau pequeno, ela era frígida, ele só queria ver filmes de ação, ela só queria assistir Friends. Ele queria XBox e ela queria sair pra beber. Finais criam a falsa impressão de que NUNCA, NADA foi compatível.  E aquele começo mágico à moda Disney cai por terra.

     Poucas vezes , quando do fim, resta algo de um passado em comum, como aquela amizade esquisita que, no fundo no fundo, lembra do teu corpo nu e fica pensando quando vai ter uma abertura pra te levar de novo pra um lugar mais íntimo, ou lembra do teu perfume, ou aquele sorrisinho maldoso que só tu tinhas, aqueles papos que viravam noites… e aquele incômodo se instala.

          É vantagem viver sem memórias. É prudente não criar novas memórias. Assim não existem remendos emocionais que possam se descosturar e soltar alguma fera faminta dentro do peito. Claro que, por vezes, faz falta uma companhia mais específica, mas já existem soluções inteligentes para isso. Algumas precisam de pilhas, outras de ar, outras ainda, só de uma bebidinha. Não é necessário que se acorde a fera dormente para que algumas solidões se resolvam bem.

     Costumo dizer que chego em casa e sinto a falta desesperadora de um marido. É a janta que não sabe se preparar sozinha, a casa que não é autolimpante, são as gatas que ainda não sabem se servir, é o meu banho que eu mesma vou ter que organizar, porque nem a toalha se dispõe a se dirigir ao banheiro sem mim. É aí que eu largo meu material, respiro fundo, ligo um som e, cantando para desopilar do dia cheio, encaminho a janta enquanto limpo o que precisa ser limpo, tomo meu banho enquanto a janta esfria um pouco, janto e me acomodo. Então, depois de estar confortavelmente instalada para os trabalhos de correção noturnos, com um filme ou um álbum nunca ouvido, meu mate e um petisco, eu penso: como é boa essa solidão.

     Não precisa de Lacuna Inc. quem se imunizou.

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