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Debora King

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Inéditos 2013

O manifesto do horror

Com a onda atual de manifestações, ergueram-se revolucionários de final de semana como quem jogasse água em um gremlim. Monstrinhos acerebrados que não sabem nem pelo que lutam, mas lutam, gritam, esperneiam e propagam o movimento.

Claro que é interessante ver essa pseudo coragem que claramente vai desaparecer no momento que estalar a primeira bala de borracha no lombo, mas há que se convir que a maioria está tão histérica que dá ouvidos a qualquer espécie de boataria conspiratória de boteco.

É a empresa de ônibus que vai parar, é a bomba que vai explodir no meio do povão, é a escola que tem que soltar os filhos mais cedo porque senão aimeudeus. O foco verdadeiro da manifestação se perde no meio de tantas historietas sem pé nem cabeça.

Ideal seria que as pessoas focassem no que é IMPRESCINDÍVEL. PEC 33 e 37, Copa do Mundo financiada com o nosso dinheiro que deveria ser enviado pra escolas e hospitais, salários exorbitantes de parlamentares que nem sabem mais o gosto que tem uma jornada de trabalho.

São manifestações pacíficas, pacíficas como quem acaba de acordar que tem as reações limitadas por uma sonolência depois de horas de inércia. Saímos do sofá, abrimos os olhos, oi governo, agora somos cientes de todos os anos que nos acomodamos em frente a uma TV servindo de fantoches pros planos vis de vocês, estamos querendo deixar clara aqui nossa indignação com tanta palhaçada. O circo fechou, queridos.

Não que isso impeça grupos mais exaltados e menos educados de irem prender fogo. Sabe Nero? Pai deles… que queimam o próprio reino, mesmo sabendo do alto preço a pagar. E maculando o movimento dos demais pacifistas que deixam tudo intocado. Mas e o Brasil não foi sempre assim? Uma disputa de duas torcidas? Uma democracia existe até na forma de manifestar-se.

Espero, de todo meu coração, que Rio Grande faça jus ao grande movimento que se ergue atualmente. Apesar de tanta ignorância num momento como este, eu amo essa terra de gente histérica e crédula.

Foquem no que é o foco: 20/06, 17hs, Largo Dr.Pio. PACIFICAMENTEImage

O resto é o resto.

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ENQUETE

Pessoal, sei o quanto tem andado abandonado meu blog… por isso criei uma enquete para ver o que vocês preferem ler por aqui.

Vejo, pelo percentual de visitas, que as receitas de amigurumis e os poucos contos que existem por aqui são os campeões de audiência, mas quero ter uma visão mais clara de tudo… então, por favor, ajude o Debora King a ressurgir votando na enquete!!!

Muito obrigada.

Pupas

Fonte: Google Images. Alterado sem permissão.
Fonte: Google Images. Alterado sem permissão.

Chega um tempo em que não conseguimos mais caber dentro de nós mesmos. Ou então, somos tão soterrados pela nossa “massa corrida” externa que precisamos virar lagartas, para abrirmos nossas asas aprisionadas num espaço tão reduzido.

Talvez os suicidas não tenham dado conta da lagarta que foram, ou não acharam suas asas perdidas dentro do labirinto que foi eles serem quem eram. Ou talvez fossem além… ou aquém. Talvez busanos, não criaram asas nem com esforço.

Penso que o barulho externo que tanto nos incomoda seja aquela criança cutucando ansiosa a pupa… mal sabendo que pode matar o que será uma cor a mais no mundo cinzento da rotina.

E se o abrir de asas for um desfraldar bandeiras? Erguer brados inaudíveis para si mesmo é uma forma de evolução. Uma evolução solitária, como a solidão das borboletas.

Pensaria um humano mais sensível: “quão solitárias, as pobres borboletas”. Pobre humano incapaz de ver a capacidade egoísta de enxergar e se alimentar do belo que só as borboletas possuem.

Somos espelhos delas.

Depois de tanto insulto e tanto desdém, o que nos resta é a reconstrução da nossa beleza interna e externa, a nossa munição intelectual. E a perturbação da visão daqueles que só se realizam ao deter a beleza em um alfinete, para alimentar os olhos com a visão que não conseguem ter de si mesmos.

Stephen King a um passo de mim…será?

Hoje fiz uma coisa inédita na minha vida: consegui contato direto, embora virtual, com Stephen King.

Sei o quanto isso soa bizarro e patético… Mas ele faz parte da minha história e fim. Isso me basta.

Pareci idiota e tiete na mensagem enviada, isso sem mencionar o inglês truncado que usei para redigir umas linhas bem desconexas. Uma senhora cagada.

Mas, ao mesmo tempo em que sou corroída pela vergonha de mim mesma, me compreendo. São, a bem dizer, dezesseis anos dedicados à leitura dele e ao estudo de Língua Inglesa para que pudesse vir a ler os lançamentos. Era de se esperar que o nervosismo me engolisse e eu acabasse por perder todos os discursos que já ensaiei para um provável contato.

Sempre tive o véio por companhia, era mais presente na minha vida do que muitos dos meus amigos.

Dezesseis anos… É uma vida, vida esta permeada de palavras e parceiros imaginários que me prenderam a outros ondes e quandos desenhados pela mão daquele que é meu exemplo. Esta noite dei o maior passo que eu já imaginei no tangente a Stephen King. Se ele vai responder, não sei e nem espero. Só de imaginar o quão perto chegou o meu “obrigada, King” já me faz dormir em paz. Se eu for lida então, missão cumprida.

Que o ka defina os rumos dos meus rabiscos nervosos. Esta noite o meu orgulho vai além dos limites do horizonte. Eu dei meu passo.

Festa do Mar – um boicote à arte.

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Qualquer arte seduz os sentidos. Pois sim, seduz… mas alguém pensa no artista por trás do trabalho artístico? Vou além: O que pode ser considerado arte???

Independente do conceito de arte de cada um, a arte tem um CUSTO ao artista. Tintas, linhas, instrumentos musicais, estúdios, ateliers… tudo custa dinheiro. Por isso a arte, quando vendida, ganha o valor que o artista lhe dá.

Se a arte não é vendida, é por OPÇÃO do artista, que faz o que bem quer com seu trabalho. É só observar a blogosfera. O pessoal desenvolve sua arte – crítica ou poética – DE GRAÇA, para o prazer do público interneteiro que dispõe desse trabalho quando bem quer, na maioria das vezes nem linkando.

Agora, considerando-se uma mostra cultural, um evento (com renome ou não), a arte precisa ser remunerada, SIM.

Por que todo esse tre-le-lê? Pelo simples fato de estar acontecendo um problema na esfera artística riograndina. Não bastasse a constante desvalorização dos músicos riograndinos, agora a organização da FEMAR quer músicos tocando com AJUDA DE CUSTO. Uma ajuda de custo de R$250,00!!! Isso não paga nem as horas de estúdio dos músicos locais.

É impossível aceitar uma produção artística que paga 350.000 reais para uma Paula Fernandes (com o retorno do público) e não paga uma quantia decente a um músico local. Entendo perfeitamente que a entrada tem um custo relativamente baixo para a maioria da população, mas uma festa que arrecada locações de stands, entradas, ingressos para shows de nível nacional, estacionamento construído em uma via que é fechada especialmente para isso (mais os auxílios governamentais) TEM SIM CONDIÇÕES de repassar um valor cabível aos músicos locais. Eles não investem em estrutura mesmo… (que o digam os cadeirantes e deficientes visuais).

Duvido muito que qualquer dos músicos de Rio Grande peça um valor exorbitante para se apresentar num daqueles palcos cacarecos que as feirinhas riograndinas organizam para recebê-los. Portanto, não há motivos para que não sejam pagos pela sua arte.

A desculpinha de receber qualquer talento local para mostrar seu trabalho não colou. Nossos talentos reconhecem seu valor (ou a maioria, porque sempre vai ter um pau no cu pra aceitar a ajudinha de custo por um motivo “legítimo”) e dessa vez decidiram peitar a organização da feirinha de sucupira. Ao que tudo indica, haverá um boicote massivo.

O que me incomoda é o seguinte: como isto chegou a este ponto??? Há que se considerar que a permissividade e a passividade dos músicos daqui não é nova. Isso ocasionou o problema. Está mesmo na hora da reação, e que bom que veio em bom tempo.

Obviamente que as ironias não param por aí. A Festa do Mar está completamente emudecida em um período em que o marketing já era para ter começado. Ok, estamos em Sucupira, vamos pensar em um evento por vez, precisamos agora focar em lotar o sambódromo improvisado e a Avenida Rio Grande para o grandiosíssimo carnaval citadino. Mas e a Festa do Mar? Nem as atrações estão sendo divulgadas… e a culpa sempre é atirada na administração municipal, que não tem nada a ver com o bafo. Cadê o responsável pela festa, que é o mesmo de milhares de anos?

Venho, por meio dessa postagem, encher de minhocas a cabeça das pessoas que me acompanham. Boicotemos a FEMAR deste ano, é merecido, considerando ser uma feira que não remunera adequadamente os artistas locais. Esta campanha está sendo amplamente difundida nas redes sociais, e merece ser difundida além, pela mídia alternativa que a cidade dispõe.  A partir disto, libero o espaço do Debora King Website para que, quem queira colocar sua voz por aqui, faça uso livre no tangente à Festa do Mar e seu boicote à arte.

“Ela” boicota a arte, nós boicotamos “ela”.

Maiores detalhes a respeito dos ocorridos e da reunião de músicos com o Conselho, sugiro o Gotas de Ácido, onde o Bozzetti esmiúça os detalhes da reunião e de contatos com a organização da feira. Além do mais, o blog dispõe dos links dos demais envolvidos na campanha de boicote.

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MARINA – Carlos Ruiz Zafón

Comecei a leitura de Marina não dando nada pelo livro… meu desprezo começou na compra. Capa bonita, sinopse inconsistente, acabei colocando ele nos rols de livros bobinhos para ler em filas. Dei total descrédito. Maldita seja eu… o livro é ótimo!

Iniciei a obra em duas filas de caixa e o livro me abocanhou, terminei o livro em um engarrafamento, abasbacada de fascínio.

O livro Marina tem um clima gótico, obscuro, cinzento e, por vezes, lúgubre aos extremos. Notam-se nele algumas contradições narrativas que se explicam ao final. O escritor é um artista que se contrapõe a um de seus personagens: enquanto o pintor desenhava com luz, Zafón desenha com a escuridão. Um espetáculo cuja luz se faz por Marina em meio às trevas.

Os intertextos permeiam o texto desde um ímpeto de Prometeus a, de fato, uma síndrome de Frankenstein anunciada. Não existe bem ou mal nas páginas de Marina, há sim, um amor incansável pela natureza da felicidade humana em si ali.  E mais amor… amor inominável e de forma bestial, amor que nem o mais humano dos seres poderia imaginar, não fosse pelas mãos de Zafón.

“Marina” tem verdades e vontades que se entranham no leitor. Questionamentos de vida e morte além dos horizontes possíveis e padrões incomuns para demonstrar a forma visceral de certas redes tênues que igualam os humanos. O teor dramático do livro se dá, literalmente, de forma monstruosa, com tons marcantes de “O Médico e o Monstro”. E a tragédia beira o sublime de quem abraçou sua loucura abertamente nos entremeios de uma Barcelona desconhecida.

Caio F. dizia que abraçássemos nossa loucura antes que fosse tarde demais, aprendi com “Marina” que o ‘tarde’ na loucura é o fim da clareira, não a perda. Portanto, se há pulsar, abraça tua loucura. É ela que te sustenta.

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Chega de falar sobre o Kevin

Precisamos falar sobre o Kevin

 

O início do livro é o supra sumo da chatice, do egocentrismo e da futilidade de Eva Khatchadourian. É um livro pra quem aguenta um narrador enjoado que só olha para o próprio umbigo e que faz com que se justifique o fato de Kevin ser um filho problemático e distante. Porém… Eva se liberta dessas amarras tão logo decide abrir o problema por completo. Em cartas ao marido aparentemente ausente, ela deslinda o que viu da história do filho e não compartilhou com o marido nos anos de casada.

O interessante do livro ser em primeira pessoa é o fato de nos colocarmos na situação familiar da protagonista. Apesar de boa parte da balela dela ser completamente desnecessária, a parte realmente relevante é marcante. O desenho da personalidade de Kevin é bem traçado pelas atitudes dele, um menino difícil de lidar, sem amor a nada, que parece ver no deboche e na provocação maneiras de atiçar seus pares. Como um analista da raça humana às avessas, Kevin parece ver (desde cedo) prazer no incômodo e na dor alheia.

Há de se convir que o spoiler da contracapa da edição brasileira é crucial para matar qualquer surpresa que possa existir. Ao entender que Kevin é um psicopata, qualquer atitude dele, a qualquer momento do livro, é suspeita e transparece a natureza cruel de uma criança vil, sem quaisquer afetos. Apesar da anestesia de ter o enredo entregue, ainda assim existe surpresa. É impossível concluir o livro sem levar consigo o choque final de Eva. O choque da mãe que chega em casa consciente da própria histeria depois de saber o que o filho havia feito na escola, querendo achar no lar só um colo da família que lhe restaria.

De certa forma, Eva previra a desgraça que pairava sobre o teto dela, mas não tinha voz para ousar qualquer atitude que pudesse pausar a tormenta que se avizinhava. O marido julgava-a cruel por apontar culpas para o Kevin, achava que ela usava o filho como escudo para os próprios erros. Mal sabia ele que, depois de Kevin ser preso, Eva pagaria o preço de culpas que adquirira sem que tenha cometido qualquer crime.

Célia foi uma tábua de salvação para Eva, que não conseguia ser mãe como gostaria. Eva fez por onde engravidar sem que o marido desconfiasse, depois de muito haver tentado entrar num consenso a respeito de um filho além de Kevin. A família constituída era tão estranha que o casal fez um trato: Kevin pertencia ao pai, Célia, à mãe.

Não é de se admirar que o provável estopim para o ato final de Kevin pudesse haver sido a própria família. O adolescente aparentou mudança de postura após entreouvir que os pais estariam separando-se. NÃO. Não foi isso. Ele premeditou até a culpa de cogitar uma separação. Premeditou tal qual pensou em datas e detalhes primordiais do massacre em sua escola.

E quando questionado, dois anos depois, respondeu à mãe que, no começo, sabia o que o motivara ao que fez, mas agora…

 

E o que restou a Eva quando viu o monstro que seu filho realmente era (talvez sua última solução) foi amá-lo com a incondicionalidade do amor de uma pietá… quando toda uma sociedade decidiu que ela era digna de hostilidade como se houvesse executado o crime pelas mãos do filho.

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