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Debora King

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Filmes

Amour (2012)

     Que filmes de amor não me comovem, isto não é lá nenhuma novidade… Continuar lendo “Amour (2012)”

Mary and Max (Austrália, 2009)

Acabo de assistir a este filme e é impossível não querer expor minhas impressões a respeito dele.

Todo mundo pensa em animação e logo vê o castelinho da Cinderela, com a musiquinha da Disney e os fogos de artifício. História com final feliz, pessoas lindas e vilões malvadões que não tem um pingo de positividade.

Mary e Max vem desconstruir isso e, como em Le Magazin des suicidés encontrei uma história bruta por trás de uma maquiagem infantilizada.

Este filme vem falar justamente de pontos da vida humana que não queremos tocar. Toca na intimidade das pessoas em uma época em que a aridez sentimental é palpável. Espelha com graça a sociedade egocêntrica, caótica e solitária que temos construído pouco a pouco.

Mas dentro de todo esse barulho e dessa solidão, ainda existem flores nascendo do meio das pedras, e é nisso que nasce a amizade de Mary e Max, apenas mais dois rejeitados, esquisitões. Mary, uma menina de 8 anos e Max, um homem com mais de 40, ela na Austrália, ele em Nova Iorque, tendo em comum a visão inocentemente infantil para tudo.

O filme se desenrola em torno destas vidas comuns, sem nada de extraordinário senão os obstáculos comuns da vida e das relações humanas. Os problemas psicológicos, sexuais, religiosos… tudo o que orbita no universo de uma pessoa comum. Sem vilões, sem heróis, sem beleza.

A beleza do filme repousa justamente na amizade alimentada pela dupla, entre cartas, chocolates, desabafos e perguntas. O que mais encanta nisso tudo é a sutileza com que o diretor explora cada acontecimento do filme, os trágicos principalmente.

É um filme necessário, um must see, precisamos abrir nossos olhos para essas delicadezas que muitas vezes não nos deixamos ver. Como o sorriso que guardamos por anos, a beleza nos detalhes cotidianos que deixamos passar. As amizades verdadeiras que tivemos e nem percebemos. A importância daqueles personagens supostamente invisíveis da nossa existência para a nossa própria construção. As despedidas, as irrelevâncias que colocamos em primeiro plano. Tem coisas que não podemos deixar pra mais tarde, e nisso entra também o amor-próprio, que muita gente deixa passar até que sofra uma chaga sentimental.

E a brutalidade de Mary e Max repousa justamente aí, no calo que não queremos notar. Sinceramente, dá até vontade de ter amigos de verdade, daqueles que não esquecem de ti nas horas piores, como Max achou em Mary e vice-versa. Este é o final feliz deles… a amizade que andou lado a lado, mesmo em continentes tão distantes. Foram felizes sem nem perceberem.

A lição mais bonita do filme, cito logo abaixo:

A razão por eu te perdoar é porque você não é perfeita. Você é imperfeita, e eu também. Todos os humanos são imperfeitos, até mesmo o homem do lado de fora do
meu apartamento que joga lixo no chão.

Quando eu era jovem, eu queria ser qualquer pessoa menos eu. O Dr. Bernard Hazelhof disse que se eu estivesse numa ilha deserta então eu teria que me acostumar com minha própria companhia, só eu e os cocos. Ele disse que eu teria que aceitar a mim mesmo, meus defeitos e tudo mais, e que nós não escolhemos nossos defeitos. Eles são parte de nós e nós temos que viver com eles. Nós podemos, entretanto, escolher nossos amigos, e eu fico feliz por ter escolhido você.

O Dr. Bernard Hazelhof também diz que a vida de todo mundo é como uma longa calçada. Algumas são bem pavimentadas. Outras, como a minha, têm fendas, cascas de banana e bitucas de cigarro. Sua calçada é como a minha mas provavelmente sem tantas fendas. Com esperança, um dia nossas calçadas vão se encontrar e nós poderemos dividir uma lata de leite condensado.

Você é minha melhor amiga. Você é minha única amiga.

Azul é a cor mais quente – La vie d’Adèle (França,2013)

la vie d'adele

Baseado na história em quadrinhos de Julie Maroh (Le bleu est une couleur chaude) e dirigido por Abdellatif Kechiche, Azul é a Cor Mais Quente tornou-se um filme muito esperado pela audiência brasileira dita “cult”.

Tudo o que posso declarar é que após 3 horas de filme é impossível que eu tenha saído ilesa. É o tipo do filme que move até mesmo os corações de pedra. Não que fale de um assunto novo, não é isso que quero dizer, visto que é um assunto que já se tornou banal em meio a uma sociedade PAN sexual. Mas nunca é demais ver a situação estando na pele de quem precisa se encontrar.

Adèle, a protagonista, é uma estudante de 15 anos que tinha certeza a respeito de sua sexualidade, até que encontra uma moça mais velha que ela, de cabelos azuis, e vê suas certezas estremecidas. Não vou contar muito mais que isso, quem quiser saber mais, que assista. Basta que se diga que Adèle vai cruzar aquela via-crucis já conhecida. Bullying, o medo da reprovação dos pais (a cena referente a isso foi cortada do filme), a troca de universo em si. As crises são bem expostas, mas Adèle figura como uma personagem decidida em seus desejos.

Há de se dizer que o filme tem sim suas falhas. Acho lindo o discurso dos mais apaixonados, dizendo que o diretor fez um trabalho maravilhoso em cortar o script e deixar as atrizes flutuando sobre as linhas mestras da história… MASSS… ele tem suas falhas graves. E uma delas é o excesso.

Kechiche abusou do vulgar nas cenas de sexo, criou cenas sexuais extremamente longas, dignas de um pornô à moda redtube. Vulgarizou, banalizou o amor que ele mesmo construiu ao longo do filme. Não adianta o cara construir uma trajetória linda (baseada na HQ) e na hora de apresentar o passional, mostrar uma chinelagem daquelas. Ele queria naturalizar o amor homossexual??? Acho que não, porque o que ele faz é aumentar o asco dos homofóbicos, ao invés de incitar uma sensibilização.

Outra coisa que notei ser muito repetitiva foi aquela gente francesa comendo de boca aberta e falando de boca cheia. Haja estômago, viu? Depois o brasileiro é que é porco.

No mais, achei a atuação das protagonistas perfeita. São naturais, mexem com o emocional do expectador. É o tipo de filme que te carrega nos altos e baixos dele. E que mostra que a vida de Adèle vai além da paixão tórrida, é uma vida como qualquer outra, e é isso o que mexe mais ainda com o emocional, perceber que vidas comuns como as nossas são arte. A vida sozinha é arte e nós não percebemos.

Azul é uma cor fria, isso é senso comum. Porém, em La vie d’Adèle o azul demonstra todo o calor de uma vida, das paixões, dos sonhos de um ser humano comum. É um filme que, apesar de seus trechos vulgares, acorda sentimentalismos mortos e mostra claramente que a vida é do tom que se der a ela. E mais: o tempero desse tom é responsabilidade nossa.

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