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Debora King

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Cartas

Ramon, meu primo amado,

A cada vez que eu penso em ti o meu coração se aperta. Não que isso seja mau, mas eu não queria te amar assim. Me dói pensar na tua partida e pensar todo o tempo que desperdicei ausente porque “assim é a vida adulta”. Tanto trabalho, tanto estudo, tanta correria… e tanta ausência. Sei que não precisaste de mim, mas quem vai ter uma lacuna agora sou eu.

Primo, eu sei o que passaste, sempre conversamos muito sobre tudo e eu conheço a tua força e sei que a tua alma já vem pronta pro que vier desde sempre. Difícil pensar que cada tchau pode ser o último e eu sei que sempre falei que “todos vamos morrer” e que ” a diferença é que uns vislumbram a navalha descendo enquanto outros são deitados de costas na guilhotina”. Mas a morte é real e eu que fico por aqui mais uns dias não sei nem como  me despedir, nem como falar tudo o que ficou de lição, nem do quanto gosto de ti.

Tu que sempre elogiaste meus poemas vais estranhar a minha falta de destreza com as palavras nessa hora tão dura em que sei que estás partindo. Fica ciente que pra mim foi um prazer dividir parte da existência contigo e que um pedaço meu vai junto pra onde quer que vás. E que fica, se ficares. Teu riso, teu jeito apressado de falar, teu abraço apertado que não se abre mais por falta de forças, tua força interior imensa e vontade de viver iluminaram o meu pessimismo.

E esse coração apertado que eu tenho carregado é o peso da saudade que começa a se anunciar quando eu sei que me reconheces só pelo teu olhar, já que as tuas palavras se ausentam.

Se tiveres que ir, vai… Deixa a tua dor por aqui. Os espíritos livres precisam voar e vai ser o teu amor o que vai te salvar. Mas se fores ficar, eu quero pelo menos mais um mate contigo, pra me contares naquele teu entusiasmo adolescene dos filmes que viste, dos livros ruins que leste, das peripécias da Manu e dos sonhos que sonhaste noite passada…

Não vai

Tudo o que  eu queria hoje era um “não vai”. Eu queria que me pegasses do braço e me dissesses que eu não sou tão bonita assim, tão inteligente assim, tão legal assim mas que querias que eu ficasse ao teu lado porque gostas de mim. Não gostas.

E é esse teu “então tá” depois do meu ponto final o que me devasta, porque o teu conformismo abre um vão dentro de mim e eu já não sei mais se eu não morri. E quando eu leio e releio o teu ‘então tá’ eu ouço a tua voz fazendo eco naquele ‘então tá’… e nem no eco eu ouço o “FICA” que eu tanto quis.

Amanheço como quem está numa cama de hospital depois de uma amputação. Meu próprio veneno me gangrenou e a mim não restou nada senão te tirar daqui.

E o teu fantasma sorrindo por perto de mim é um incômodo inexistente numa parte que arranquei.

Então tá. Tá, então. Quero duas doses de conformismo e uma cartela inteira de comprimidos de indiferença. Quem sabe assim eu suicido meu emocional que não sabe se comportar e anda correndo nu por aí.

Queria uma carta…

Eu queria te escrever uma carta… daquelas bem bonitas, na minha melhor caligrafia, com palavras bem floridas, cheias de cores, pra apagar o cinza desse céu que chove. Mas não posso.

Me faltam as tuas cores, as tuas flores, a aquarela da tua presença ressecou… quebrou. E nem as gotas dessa chuva intermitente reúnem mais todo aquele arco-íris que um dia tu me desenhaste.

Queria tanto uma carta que te fizesse ouvir meus sons, o compasso da minha música e a voz das minhas frases tão ridículas. Não consigo.

Se ausentou de mim teu som, a batida que pulsava, os dedilhados que compuseste dentro de mim… os trovões e o gotejar da chuva agora são os decibéis mais altos que eu me permito ouvir. E são incapazes de te refazer.

Desejei te escrever uma carta que abrisse o teu sorriso e colocasse os teus olhos nos meus novamente. Mas as minhas palavras estéreis não vão ter o alcance necessário.

A minha teia de silêncios te cega, a minha ausência de cores te cala. E a minha caligrafia inerte, sem cores, sem flores, não redesenha teu sorriso em mim.

O laço

Eu jamais pensaria que o que nos unia tão intensamente fosse essa linha tão tênue e tão frágil que eu agora vejo completamente rompida nas minhas mãos.

Não consigo acreditar que aquela grandeza sentimental toda era sustentada por um laço mais fino que um fio dos meus cabelos.

Tatuei minhas melhores palavras na tua música mais pesada sem ter tido tino de perceber tua surdez, que tua música era muda e só eu ouvia.

Ouvi sozinha o estalo do fio que nos ligava se rompendo e tentei gritar – mas era só silêncio – e deslindei guerras contra o meu travesseiro enquanto te ausentavas.

A solidão antes de ti, tão minha amiga, tornou-se minha carcereira nas infinitas horas silenciosas que desenhavam um deserto dentro de mim.

E o que mais me perturba é esse adeus estéril que deixou de existir, como um dia sem o final, como uma frase sem conclusão, uma carta sem despedida.

Carta ao meu eu criança

 Vi na Zero Hora hoje (mas a edição era de uns domingos atrás, 25/12/2011) uma matéria em que pessoas nem tão reconhecidas no estado escreviam cartas pra si mesmos quando crianças. Li uma delas, escrita pelo Duca Leindecker e me sacudi. Decidi fazer uma minha também.
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  Debora,
     Não me conheces ainda e talvez nem venhas a me conhecer por inteiro um dia, mas existem algumas coisas sobre as quais eu queria conversar. A vida é longa demais e de vez em quando podes te sentir perdida e sozinha, aquieta teu coração.
     Primeiramente, aceita os nãos que a vida te dá… entendas que eles começam em casa, no amor maternal, pra que a gente aprenda que a dor de uma negativa pode ser pior do lado de fora da porta de casa. Um não sempre é incômodo, mas espernear e arrancar os cabelos não vai te ajudar. Pondera o não e tenta converter num sim. Não sabes ainda, mas uma das tuas maiores virtudes depois de velha vai ser a facilidade em manipular os outros. Ou faz melhor, tenhas humildade e aceites esse não numa boa.
     Não existem amigos, não fica sonhando nem fantasiando sobre as tuas amiguinhas da quadra. Elas tem opinião própria, assim como tu. E tu tens defeitos, assim como elas. Vai chegar o tempo de escola e vais ver o quanto o ser humano e o tempo, se bem combinados, serão implacáveis contigo. Entende que tua intolerância à frustração e a falsidade das pessoas vão te bater na cara a vida toda, então não leva a vida tão a sério pra não machucar tanto a tua cabecinha fechada.
     A verdade sempre vai dar as caras, seja ela procurada ou não, então não fica tentando arrancar água de pedras. Espera e mantem o coração tranquilo que as tuas dúvidas vão ser respondidas quando a vida achar que é melhor. Pára de tanta pergunta, menina! Sossega e observa.
      Repito, Deborinha… não leva tua vida tão a sério, senão as dores são maiores. O choque vai ser uma constante pra ti, com esse coração tão aberto e essa cabecinha que acha que tudo é verdade. Existe mentira lá fora do teu quarto e, mesmo que ainda não saibas o que é isso, podes ter certeza que o mundo vai ser um incômodo constante pra ti.
      Te preocupa com o que é mutável em ti, não com o que não é. Não tenhas complexos porque teu nariz, orelhas e boca não são como querias. Te preocupa com o que podes mudar em ti: teu pensamento. A adolescência vai chegar e vais descobrir por observar as colegas que incômodos com as feições de rosto vão tomar proporções gigantescas e vais comemorar tua falta de complexos. Mas relaxa, tu vais te livrar disso antes do que imaginas, com 8 anos. Não aceita que te digam que não és bonita, tu és… mas só vais entender isso depois de perceberes que não é só a magreza que pode abalar geral.
     Falando em magreza, depois dos teus 5 anos vais ganhar peso. Muito peso. Não destrói tuas mãos batendo nos coleguinhas de escola por isso, tua mãe vai padecer demais a cada sinal de saída na escola. Usa tua inteligência pra “quebrar” eles. E não esquece: gaúchos não são burros, apenas não falam “você”… um dia vais ter tanto orgulho disso que as pessoas que não falam como tu falas vão te odiar.
     Na adolescência, te mantem com a tua cabeça, vais te dar muito bem se fizeres isso. Não segue os conselhos de quem vai quebrar a cara. Mesmo que te ridicularizem por isso, um segredinho, aqui entre nós: todos os/as “populares” da tua escola não vão ter o happy ending que vais ter. Não deixa que as palhaçadas que te dizem te abalem. Não vão abalar. Teu nome não é Carrie, mesmo que um dia te sintas na pele dela quando chegares aos 16, isso passa.
     Entende uma coisa: teu lugar favorito vai ser sempre dentro da tua cabeça, mesmo quando ela tá virada em um campo de guerra. Vais ter longos dias e belas noites socada dentro do teu quarto, olhando pro teto, ouvindo música e fazendo mil e um labirintos mentais na procura de ti, revirando baús de lembranças, escrevendo poemas e histórias mentalmente … ou só pensando mesmo. Tua dispersão vai ser uma das tuas características mais fortes, lide bem com isso. Ah, e matar pessoas mentalmente é bem legal sim, não fica te culpando por isso.
     Segredos, todas as pessoas tem os seus. Tu também vais ter os teus, não compartilha eles com ninguém se não queres que as pessoas saibam. Quem tu achas que é “melhor amigo” também tem alguém que ele acha que é “melhor amigo”. Todas as pessoas tem “melhores amigos”. Um segredo deixa de ser um segredo quando alguém além de ti ouve ele. Vais ter teus segredos bem guardados graças ao teu aprendizado sobre as falsas amizades e sobre individualismo.
     Papéis, papéis, papéis… não são um problema mental digno de psicólogos… tu vais ser aficcionada por papel e lápis, vais escrever quilômetros e quilômetros de palavras. Escreve tudo que te der na cabeça, é teu escape do mundo que tanto te incomoda. Outro segredinho: teus diários vão ser iniciados no momento que adquirires escrita. E tu vais te orgulhar muito disso.
     Não sofre por antecipação… tu vais fazer muito ao longo da vida, entende que enquanto  a tragédia não aconteceu, ela ainda não é uma tragédia. Mas te conforma cedo com o que te incomoda e tenta esquecer, tua memória vai ser tua maior aliada e tua maior inimiga durante a vida inteira. Ninguém lembra eternamente uma dor, um dia ela passa e a gente esquece como foi. Acredito que nunca vais entender isso.
     E por último, e mais importante: te deixa levar pelo vento, não te reprime tanto. Não te desacredita tanto, isso vai te podar as asas. Não te azeda tanto, não podes ser  uma velha de 90 anos aos 20, só porque a vida não é como tu idealizou. Lembra do “não”? Pois é, nem depois de 100 anos vais aprender a lidar com ele. Mas não deixa ele te esmorecer.
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                                                                 Tenhas uma boa jornada, pistoleirinha…
                                                                  Longos dias e belas noites,
                                                                  Debora, aos 25.

De quando eu, de fato, descobri o amor

… para ser lido ao som de Someone like you

Esses dias tive um surto psicótico. Daqueles de quase morrer… de chorar de soluçar como uma guria histérica que teve a primeira desilusão amorosa. E foi, tarde mas foi.
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Estava em casa, na minha rotina de sempre quando, ouvindo um cdzinho, me apareceu Someone Like You com um solo que chama o ouvido a prestar atenção. Sentei pra sentir melhor a melodia e ver o que a gordinha tinha pra dizer. Foi o que bastou pra me destruir. Eu andava nostálgica desde o dia anterior… achava que pudessem ser efeitos de uma TPM fora de hora, ou saudade do meu Morfeu que está passando uns dias no SPA da vovó, ou stress, ou fome, ou qualquer coisa. Mas Adele conseguiu desencadear uma reação que me abriu o peito. E eu duelei comigo mesma pra botar pra fora o que me perturbava.
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Assumi, entre muitas negativas e contra minha própria vontade, o que me incomodava e passou a incomodar ainda mais: assumi uma perda que eu nunca pensei que tivesse sido tão grande na minha vida, assumi um amor perdido que eu nunca assumi nem pra mim.
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Nessas minhas histórias de ser fria, ser durona, de o amor não existir, vi o amor passar debaixo do meu nariz e desprezei, ignorei completamente. E nesse dia dilemático que doeu até que eu cansasse e fosse dormir, eu assumi ele, revivi tudo mentalmente e sofri o que estava engasgado desde que eu perdi a perda que eu não sabia que havia acontecido pra mim.
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Não foi uma história de amor digna de filmes, mas eu a descobri minha, e me orgulho de ter tido forças pra assumir, mesmo que tarde, tudo o que eu senti. Melhor que isso: exorcizei, limpei o coração e percebi erros de trajeto que nunca tinham me ocorrido antes.
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Posso dizer que não é o tipo de história com final heroico, nem de happy ending. Mas eu consegui expor o que me aconteceu durante todo o período que me estremeci de paixão em uma carta quilométrica que enviei logo que coloquei o ponto final. Pedi que não me fosse enviada resposta. Não quero repensar essa história, ela terminou no momento que eu consegui tirar aqui de dentro meu hóspede.
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Vou transcrever alguns trechos da carta, vale a pena ser lida novamente (por mim mesma). Se leu até aqui, não espere nomes. Quem conhece a história, conhece. Quem não conhece, não precisa saber de quem se trata.
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“(…)Vou evitar as formalidades clássicas… nunca fui formal e nem vou ser agora. Sabes como sou, não preciso de apresentações.

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Hoje, por um acaso do destino, baixei uma música que te tirou de onde eu te mantinha trancado dentro de mim. Se quiser parar de ler, agora é a hora. Antes de eu soltar tudo que eu nunca soltei de fato… aquilo que eu mantive velado até agora que tomei coragem pra abrir meu peito.
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A música diz o seguinte:
‘I heard that you’re settled down
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That you found a girl and you’re married now
I heard that your dreams came true
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Guess she gave you things, I didn’t give to you
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Old friend
Why are you so shy?
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It ain’t like you to hold back
Or hide from the light
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I hate to turn up out of the blue uninvited
But I couldn’t stay away, I couldn’t fight it
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I hoped you’d see my face and that you’d be reminded
That for me, it isn’t over
.
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Never mind, I’ll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
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Don’t forget me, I beg, I remember you said
Sometimes it lasts in love
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But sometimes it hurts instead
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead
.
You’d know how the time flies
Only yesterday was the time of our lives
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We were born and raised in a summer haze
Bound by the surprise of our glory days
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I hate to turn up out of the blue uninvited
But I couldn’t stay away, I couldn’t fight it
.
I hoped you’d see my face and that you’d be reminded
That for me, it isn’t over yet
.
.
.
Never mind, I’ll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
.
Don’t forget me, I beg, I remember you said
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead
.
Nothing compares, no worries or cares
Regrets and mistakes they’re memories made
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Who would have known how bitter-sweet this would taste
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Never mind, I’ll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
.
Don’t forget me, I beg, I remembered you said
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead’
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Eu imagino que a essas horas já estejas com tudo mais do que entendido, mas eu preciso falar… e como falar não dá de ser olho no olho, eu decidi escrever.
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A verdade que eu nunca assumi foi o quanto tu mexeu comigo desde o começo… de uma forma que nunca ninguém mexeu e, apesar do senso comum que isso soa, eu realmente te amei e nunca consegui te tirar da minha cabeça. Nem depois de tanto tempo.
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Não pensa que isso foi depois de esse ou aquele ocorrido. Não. Não tem nada disso. Foi antes disso que tu já tinhas te entranhado na minha cabeça, foi no começo,(…)… as tuas trollagens, tuas risadas. O conjunto da obra me ganhou. Eu, que sempre tinha sido tão fria e durona me vi amolecendo pouco a pouco por uma criatura (…) que eu nem sei daonde surgiu, contando uma piada idiota de “bom diaê” e que marcou. O DVD de asneiras com o Bátema e uma foto do primeiro churras no menu principal, as piadas idiotas em horas indevidas(…)bolão de lovely… bah, e as cantorias? Nunca mais ouvi My Immortal e Refrão de Bolero.
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Foi só besteira juvenil… mas mesmo hoje não esqueço da tua voz, da tua risada mais histérica, e nem do teu cheiro que eu pouco tive a oportunidade de sentir. Teu lábio marcado… ahahaha. Nem sei o que comi ontem, mas lembro cada detalhe teu.
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Acontece que o destino mandou e foi como tinha que ser desde o início. Não estou te pedindo nada, nem quero que me respondas, só quero me abrir e ver se me livro desse peso que eu carrego desde que cruzei contigo a primeira vez na FURG. Tu, as tuas bermudas de mil bolsos e o teu caminhar mancado por causa do long(…).
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Toda aquela pose de machona que eu levava, tudo mentira… quer dizer… mentira a partir do momento que eu percebi o quanto me movias. Eu tinha medo de te assustar, de fazer com que te afastasses de mim se eu um dia tentasse falar algo. E eu até cheguei perto de te falar aquela vez no lago (…) lembra? Mas nunca consegui. Não era por falta de coragem… era por achar que eu precisava te ter próximo, nem que fosse só como amigo.
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E aí veio o tempo em que (…) a distância pegou pra mim. Perdi a conta das noites que passei em claro escrevendo escrevendo escrevendo sem fim e aos prantos pensando uma maneira de conseguir tocar adiante as coisas. Não que eu fosse morrer, mas ficou mais difícil. Mas apesar disso, tu te mostraste leal a mim, não sumindo. E não sabes o bem que tu me fazias quando ias no departamento pra jogar conversa fora… e eu, sempre desajeitada, acabava correndo contigo (…). Eram uns poucos minutos, mas tu iluminavas meu dia com aquilo. E as idas ao Rosa nas sextas… era tudo o que mantinha meu pé no chão.
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Foi quando veio teu namoro, e eu nunca vou esquecer o dia que (…) te vi com ela, no fim de um beijo. Naquela noite eu bebi tanto, tanto, mas tanto… que era anormal pro meu padrão de bebedeira. Escrevi tanto, risquei, rimei, rasguei. Queria esquecer, queria afogar o que eu tinha visto, queria sumir, louca e bêbada pela rua. Só piorou. E foi aí que a minha coragem de tentar te dizer qualquer coisa se esvaiu de vez. Esgotou, acabou completamente. Zero XP.
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A partir daí eu me enlouqueci… bebendo, saindo, dando em cima de geral porque eu tinha que me vingar, eu tinha que fazer doer em ti como doeu em mim. Mas eu sabia que o poço era seco, que não ia sair dor de lado nenhum. Estavas feliz e eu não podia estragar isso com acessos infantis de perdedora. Meu jeito foi o afastamento. Foi quando eu achei [alguém] e achei que gostava dele e achei que era feliz ao lado dele. Foi a pior coisa que eu podia ter inventado. Mas eu toquei em frente, esperando te substituir. O que eu não sabia era que eu não ia conseguir.
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E o relacionamento andou,(…) e eu me separei (…) do canalha. E eu sofri mais ainda, e eu chorei mais ainda… e bebi mais ainda, não dormia, não comia e já quase não tinha mais vida. E não foi por ele toda essa apoteose de fiasco, foi por me deparar mais uma vez com a verdade de não poder te ter, e por me sentir (como agora) impotente perante a situação. Me feri, me incomodei na busca de um escape. E não deu.
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Em 2009 eu tive uma apresentação na qual eu falei sobre “Friendship”… e eu fiz um vídeo com o nosso grupo clássico de caos (…). O grand finale foi a última vez que cantei My Immortal. Um colega tomou tua posição ao violão e eu cantei. Foi a pior vez que cantei. A voz não saía e eu só queria chorar. A tua ausência foi a minha fraqueza e insegurança… não só a tua ausência ali do meu lado, mas fora da minha vida.
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Os anos se passaram, o nosso contato apesar de menos freqüente nunca foi cortado e veio a tua formatura. Tu, lindo, togado e discursando… me enchi de orgulho como se fosse algo meu. E chorei escondida no meio do público por saber que era ali que acabava de vez todo e qualquer contato. Estavas indo (…). Era game over pra mim, mais do que já havia sido desde 2006.
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E mais tempo se passou… não teve ano que eu não lembrasse do teu aniversário, mesmo não falando nada. Não teve noite que eu não tenha deitado a cabeça no travesseiro sem direcionar ao menos um pensamento, uma energia pra ti. Não teve poema que eu tenha escrito que não tenha um pedaço teu. E, apesar de toda essa dor que eu carrego escondida, muito me conforta saber que tens tido uma vida feliz (…).
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Não vou te alugar mais com tantas lágrimas que já proferi por aqui. A carta toda está permeada de “chorei” , “bebi” e “sofri”. Não quero que penses que o que senti por ti só me trouxe dor. Pelo contrário… era o que me estimulava a cada dia que eu pensava na possibilidade de te ver, ouvir tua voz, ver teu sorriso escancarado, nem que fosse só de passada e ouvir o que tinhas pra dizer, mesmo quando eu ficava nervosa que nem guria nova e virava café por cima de mim mesma na tua frente.
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Gosto de relembrar tudo o que passei do teu lado, mesmo sabendo que eu vivi um platonismo que eu mesma criei. E gosto de saber que eu não sou tão fria para sentimentos como eu sempre pensei que fosse. Fico feliz em ter tomado forças pra admitir pra mim mesma e, conseqüentemente, pra ti o que sinto. Acho que agora eu te exorcizo de vez.
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Estou descobrindo que ter te mantido trancado num quartinho num canto do meu cérebro não foi solução, tu sempre deu um jeito de escapar de lá e me assombrar, me lembrando que fracassei… o segredo era ter te desprendido de mim desde o início. Parece assunto de esquizofrênico, mas só eu sei como foi conviver com as lembranças de ti. Mas esquece… esquece isso tudo que falei aqui, esquece… eu só precisava mesmo desabafar, me abrir… pra dizer que eu nunca te esqueci, que tu nunca saiu da minha cabeça… nem do coração. Por mais difícil que tenha sido pra mim, agora eu vejo que abrir o jogo é menos trabalhoso do que lidar comigo mesma nas noites em que sonho contigo e acordo feliz como uma boba alegre. E não te preocupa, eu não vou “babar muito pelo Sawyer” (lembra dessa dedicatória no DVD?)… eu já babei demais foi por ti. E acho que estou cansada de tanto carregar esse incômodo em mim… não que tu sejas um incômodo, nunca foste. Mas as lembranças e a frustração se tornaram incômodos constantes. Há muito tempo.
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Já me estendi demais e nem sei se chegaste até aqui, mas fica tranqüilo. Eu vou bem por fora. Me formei, Saí de casa, fiz meu piercing, me tatuei… estou levando a vida que sempre quis. Sou professora de inglês, ganho bem, crio gatos, sou administradora do stephenking.com.br e até na Polônia eu já andei dando entrevista sobre Stephen King. Estou vivendo das minhas paixões. Só faltou uma… e dessa eu estou tratando de esquecer.
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Te agradeço, (…)… por seres quem és, por teres sido quem foste comigo em todas as ocasiões, porque mesmo quando foste mais troll nos deboches, ainda assim foste de uma gentileza bárbara comigo.
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Quem sabe um dia a gente se reencontra. Um beijo, dessa vez, o último. Te amo.
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