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Debora King

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Amineko

Um dos amigurumis mais famosos EVER, o Amineko…

Óbvio que essa receita nós sempre encontramos em inglês, japonês, klingon… mas em português não tem NADA.

Eis a receita então!!!

Para visualizar a receita e imagens, é só clicar Aqui.

Para salvar a receita no teu computador, usa os ícones de atalho na parte inferior direita da tela que vai se abrir com o documento.

Bom croché!

Obs.: Em caso de dúvidas, usa os comentários. 

Sentimentalidades Kinguianas – The Dark Tower Saga

   Mais de quatro mil páginas e quase 3 anos depois, no pôr-do-sol deste sábado… eu terminei a leitura de A Torre Negra. Não acho que seja uma notícia a ser compartilhada com ninguém em especial. É uma conquista tão estupenda para mim que penso que ela deve ficar guardada no meu coração, não ser divulgada como uma notícia a ser diminuída pelos olhos e ouvidos de outras pessoas. O êxtase e o vazio psicológico/emocional que isso me causa são tão imensos que quase ouço a canção da rosa a me puxar.
     Não é fechar um livro, é fechar 7 volumes de uma história, fechar as portas de uma jornada, encerrar inúmeros mundos além deste entre palavras que, se soltas, talvez não rendessem nem um dicionário escolar, dada sua simplicidade. É chegar ao fim de uma jornada que, inquieta, não fica inerte dentro de folhas, ela se une ao leitor como mais uma peça de um ka-tet invisível. É incrível ter sobrevivido à grandeza da Torre Negra e à implacabilidade do ka, essa força imensa.
     Não é uma jornada fácil, os desafios são muitos. Tanto para leitor, quanto para narrador, personagens, tudo. São muitos mundos que convergem para uma única coisa e o que une estes mundos é um elo só: A Torre Negra, os 7 livros que narram essa busca e que levam o leitor pela mão por lugares jamais imaginados por uma mente preguiçosa. Como se Stephen King fosse apenas o mediador de todos os pólos, a história flui da mente dele para a mente do leitor, como se o “toque” fosse algo  mais corriqueiro do que se possa crer.
     Incontáveis vezes dormi de coração tranquilo sabendo que o ka-tet dormia e respirava pesadamente ao longo do caminho.
     Não raras foram as ocasiões em que me esvaí em tiros, matando com meu coração.
     Perdi a noção das vezes que precisei forçar meus olhos marejados além do horizonte para ver se haveria um inimigo à espreita.
     E por quantas vezes eu maldisse o ka, essa roda geradora de uma existência que eu não posso controlar?
     As dores, os risos, as palestras… cada gosto, cheiro e sensação ao longo do caminho, costurados pela ansiedade de um ka-tet que não era meu.
     Mergulhei em um par de olhos azuis cravejados de marcas que traziam consigo o peso da  idade do mundo e senti as dores de um parto indigesto que consumiria uma maternidade doentia impensável.
     Sofri duas mortes precoces e revivi depois de um vício que quase me custou a vida. Aprendi que o amor não se mede pelo tamanho do corpo mortal que é deitado à terra perante a morte. O ka ensina o poder do amor de uma forma trôpega, às vezes.
     Eu, Debora, terminei minha jornada enquanto outras tantas criaturas abrem o primeiro volume pela primeira vez. O meu ciclo se fechou… mas milhares de outros estão se abrindo enquanto deito aqui minhas impressões de tudo o que vivi entre as páginas desta saga. Sinto a dor do adeus e aquela saudade boa que nos faz lembrar todo um percurso quando nos vemos aos pés da majestosa Torre.
     O sofrimento final não é privilégio apenas do protagonista. É a dor de muitos em inúmeros ondes e quandos. É dor que ultrapassa o calibre das milhares de páginas. Roland, eterno peregrino rumo à Torre Negra que por essas horas cruza novamente o deserto em busca de respostas e de uma predestinação, como um eterno salvador do elo que equilibra todos os mundos. E quem teria mais coração que ele para encarar tudo isso?
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     Longos dias e belas noites, pistoleiros. Que o ka seja gentil com vocês.

 

Curriculum Vitae

     Tenho andado numa fase de auto-análise, de olhar pra dentro, de tentar me achar. Na realidade sempre estive, nunca deu em nada, mas eu sigo inquieta. E é por essas e outras que tenho publicado tantos textos voltados pra mim mesma e com uma postura mais séria se comparada à postura que eu apresentava no começo do blog. Acho que a tal maturidade anda batendo à minha porta e, ao que parece, eu estou deixando ela entrar. Não que me agrade esse ar sério que tenho tomado diante de mim mesma… mas o tempo se encarrega de endurecer o que já foi mais flexível.
      Chega de apresentações… o fato é que a temporada de formaturas está aberta e cada vez que participo de uma formatura me voltam mil e um tópicos à cabeça. Quais? Um Curriculum Vitae de verdade, não aquele que só se baseia em papéis conquistados a custa de muito estudo/esforço, mas um curriculum que contempla a vida em si. Qual o teu currículo de vida? Já pensaste nisso? O que já fizeste de bom e mau que nunca ninguém vai tomar por quesito avaliativo, seja numa entrevista de trabalho, seja pra um concurso? Eis o meu:

     Eu sou a Debora-sem-acento-e-sem-agá, abelha em hebraico, nascida em um sábado de 1986. Sim, nasci no final de tarde do sábado, pra ferrar com qualquer festa que meus pais pretendessem. Como primogênita, dei à minha mãe todos os dissabores da maternidade, incluindo o direito ao choro. Não o meu, o choro dela, que por vezes pensava que não daria conta de cuidar da vida que tinha trazido ao mundo. Mamãe, acalma teu coração nervosinho, tu conseguiste. Aos seis meses eu já dava os meus primeiros passinhos e, como primeira estripulia, joguei uma cestinha de vime na cabeça do meu pai. Com um ano eu falava, andava e contava até 10. Pulando como uma pulga, mas contava.
     Cedo comecei a fazer aulas de balé. Parei aos 6 anos, depois de 4 anos de “pliê” e “elevê”. Entrei na escola aos 5 anos, já sabendo escrever meu nome e tocando terror na torcida (um dia conto minhas histórias de escola, e não são poucas). Quase reprovei no JARDIM por ser uma aluna indisciplinada. Mas o que eu queria pintando bonequinhos quando eu já sabia ler e escrever na metade do ano?
      Nos 5 anos que morei em São Paulo fui a maior ativista pró-gauchismo e pró-gordice que aquela cidade bizarra já viu. Brigava horrores pra defender meu direito de falar “tu” e meu direito de ser a gorda que sempre fui. Isso me rendeu muuuuuiiiitas sentadas no banquinho do santo lá da escola. Sei lá que santo era, mas muito sentei lá pra refletir sobre minhas atitudes violentas em relação aos meus coleguinhas.
     Aprendi a ler por conta. Meu pai me ensinou as letrinhas e, num domingo de sol, eu queria que alguém me lesse um gibi do Chico Bento e como o babado na TV estava fortíssimo, não fui atendida. Me tranquei no quarto e não saí enquanto não li uma página inteira. Com o cérebro exausto, saí aos berros: EU LEIO! EU LEIO! A maior emoção da minha vida até então, ler sem auxílio. Uma criança dessas não dá certo no meio das outras. E eu era avaliada pelo meu desempenho pintando boboquices e me comportando como uma apalermada. Não por eu saber ler e escrever.
     Fui Miss Caipirinha em 1995. Meu momento de glória no Ensino Fundamental. Ganhei uma faixa e uma bola de vôlei vagabundona, mas pra mim aquilo era o maior prêmio que alguém poderia conquistar. Eu deixei de ser a baderneira da classe por uma noite de festinha junina pra voltar a sê-la na segunda-feira seguinte. Grande feito pra mim, tenho a minha faixa até hoje.
     Aos 10 anos tive um choque de realidade. Eu e minha família passamos por problemas financeiros brutais de 1996 em diante. Eu aprendi a lidar com o não ter na forma mais prática e pura que eu poderia ter aprendido. E foi bom, eu descobri que não era o dinheiro que movia a minha felicidade. Sou grata pelo fato de a vida ter me ensinado lições, como a simplicidade, cedo. E por eu ter recebido do universo pais que sempre foram amorosos e nunca descontaram nos filhos as frustrações profissionais e financeiras. Crescer em um lar de amor foi fundamental pra construir o que sou hoje, mesmo eu sendo a monstra que sou.
     Fiz teatro, artesanato, cantei em coral, participei de grupos de poetas, fui campeã de caçador e vice-campeã de futebol na escola, ganhei concurso de escultura na areia e gincanas, fiz cursos profundíssimos sobre várias religiões. Fui evangélica, mórmon, católica, visitei umbanda e kardecismo. Fui fã de Hanson, Leonardo DiCaprio, KLB e Reação em Cadeia (dessa até presidente de fã-clube eu fui).
     Aos 14 anos entrei em sala de aula como professora pela primeira vez e nunca mais saí de lá. Já tinha querido ser dentista, cantora, atriz, advogada, bióloga, nada… mas sempre quis ser professora. Aos 17 concluí o curso de magistério com êxito. Era professora, oficialmente.
     Aprendi sozinha meu inglês, meu croché, meus amigurumis e os EVAs 3d. Aprendi e compartilhei o que aprendi. A vida foi boa comigo, sempre me deu o que eu queria, não tem porque eu ser egoísta.
     Sempre li muito, independente de quando. Pra mim e pros outros. Nunca privei alguém do que eu lia, mesmo quando era chatíssima lendo coisas que só eu gostava. Que o diga minha mãe enquanto fazia o almoço comigo correndo na barra da saia dela grudada em algum livro e lendo em voz alta toda emocionada alguma coisa que pra minha mãe não fazia diferença nenhuma. Obrigada mamãe, por ter sido sempre tão compreensiva e apoiadora.
     Já tive várias facetas: poeta, cantora de chuveiro, escritora de diários, atriz de teatro escolar, lunática, cachaceira, nerd, cdf, magra, gorda, nadadora, ciclista, patinadora, punk, pink, metaleira, água com açúcar, bruta, chorona, protetora, estúpida, amável, briguenta, pensadora, explosiva, extrovertida, tímida, cara de pau, boa moça, sem-vergonha, conservadora, mente aberta, tudo e nada.
     Fui babá, dama de companhia de idosas com Alzheimer, vendi toda a sorte de muamba por catálogo, estagiei como secretária, recepcionista, professora. Vendi material de Sex Shop, croché, lingerie, natura, avon, prata, bijouterias, e mais uma infinidade de coisas. Dei aula voluntária, particular, na igreja e pras colegas de trabalho da minha mãe.
     Fiz minha faculdade custeada pelos meus estágios e meus “bicos”. Me orgulho disso. Me orgulho de cada momento dentro daquela instituição. Inclusive os momentos de desespero em que pensei em desistir do curso por incompreensão de determinados professores “doutores”. Fiz mil e um cursos na minha área estando lá dentro. Soube aproveitar cada oportunidade e me instrumentalizei muito, até mais do que realmente precisava. Fui até membro do D.A. de Letras por 2 anos.
     Obviamente que um dos meus estágios foi totalmente fora do que o mundo acadêmico aceitaria, mas achei uma orientadora que me deu toda a credibilidade do mundo e encarou comigo quando inventei de dar aulas de escrita criativa em um projeto extraclasse na escola em que trabalho. Foi o meu ápice em tudo que construí ao longo do meu caminho. Foi o momento em que toda a minha bagagem foi canalizada em algo que eu sabia como fazer. E eu nem sabia disso.
     Me formei trabalhando na área, não caí no mundo dos desempregados… mas não me esqueço a via-crúcis que foi chegar ao emprego que tenho agora. De tudo isso que contei, o que eu poderia contar como curriculum pra um emprego? Oi, eu sou a Debora, tenho 19 anos, sou formada em Magistério e Letras  Português/Inglês, tenho também alguns cursos na área de Literatura, de Língua Portuguesa e cultura canadense. Ponto. E todo o resto do meu caminhar? E todas as histórias que eu tenho pra contar? E tudo que vivi e que me fez ser o que sou hoje em dia? Nada disso conta? Ao mundo que vivemos não. Mas enquanto humanos sim.
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     O que quero dizer com toda essa novela é que, por mais que a gente se “desbaratine” de vez em quando porque o mundo bate portas na nossa cara, não é um formato fixo e inflexível que vai avaliar o ser humano que se é. O que a gente leva por dentro é maior que isso tudo e temos que aprender a valorizar isso mesmo quando dói mais forte.
     Muitos amigos meus se sentiram tristes pelas notas do ENEM e se desacreditaram. Enfiem uma coisa na cabeça de vocês: vocês são mais do que uma prova mal formulada, a história e o caráter de vocês fala mais alto que isso. Tudo bem que isso não faz com que vocês passem no ENEM. Mas também lembra que vocês não são um fracasso da natureza, como gostam de se avaliar.
     Tenho conhecidos desempregados que se revoltaram. Recado: isso passa. E quando passar vocês vão ter apenas uma vaga lembrança do período sombrio que foi a busca por um emprego. Digo por mim, que por um bom tempo pirei desempregada e hoje em dia tenho o emprego que sempre quis. Relaxem, o universo vai dar voltas e voltas, mas vai encaixar vocês num local que o “perfil” de vocês seja acolhido com prazer.
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    O que está por dentro é o que importa. Esqueçam os papéis e as máscaras.

Carta ao meu eu criança

 Vi na Zero Hora hoje (mas a edição era de uns domingos atrás, 25/12/2011) uma matéria em que pessoas nem tão reconhecidas no estado escreviam cartas pra si mesmos quando crianças. Li uma delas, escrita pelo Duca Leindecker e me sacudi. Decidi fazer uma minha também.
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  Debora,
     Não me conheces ainda e talvez nem venhas a me conhecer por inteiro um dia, mas existem algumas coisas sobre as quais eu queria conversar. A vida é longa demais e de vez em quando podes te sentir perdida e sozinha, aquieta teu coração.
     Primeiramente, aceita os nãos que a vida te dá… entendas que eles começam em casa, no amor maternal, pra que a gente aprenda que a dor de uma negativa pode ser pior do lado de fora da porta de casa. Um não sempre é incômodo, mas espernear e arrancar os cabelos não vai te ajudar. Pondera o não e tenta converter num sim. Não sabes ainda, mas uma das tuas maiores virtudes depois de velha vai ser a facilidade em manipular os outros. Ou faz melhor, tenhas humildade e aceites esse não numa boa.
     Não existem amigos, não fica sonhando nem fantasiando sobre as tuas amiguinhas da quadra. Elas tem opinião própria, assim como tu. E tu tens defeitos, assim como elas. Vai chegar o tempo de escola e vais ver o quanto o ser humano e o tempo, se bem combinados, serão implacáveis contigo. Entende que tua intolerância à frustração e a falsidade das pessoas vão te bater na cara a vida toda, então não leva a vida tão a sério pra não machucar tanto a tua cabecinha fechada.
     A verdade sempre vai dar as caras, seja ela procurada ou não, então não fica tentando arrancar água de pedras. Espera e mantem o coração tranquilo que as tuas dúvidas vão ser respondidas quando a vida achar que é melhor. Pára de tanta pergunta, menina! Sossega e observa.
      Repito, Deborinha… não leva tua vida tão a sério, senão as dores são maiores. O choque vai ser uma constante pra ti, com esse coração tão aberto e essa cabecinha que acha que tudo é verdade. Existe mentira lá fora do teu quarto e, mesmo que ainda não saibas o que é isso, podes ter certeza que o mundo vai ser um incômodo constante pra ti.
      Te preocupa com o que é mutável em ti, não com o que não é. Não tenhas complexos porque teu nariz, orelhas e boca não são como querias. Te preocupa com o que podes mudar em ti: teu pensamento. A adolescência vai chegar e vais descobrir por observar as colegas que incômodos com as feições de rosto vão tomar proporções gigantescas e vais comemorar tua falta de complexos. Mas relaxa, tu vais te livrar disso antes do que imaginas, com 8 anos. Não aceita que te digam que não és bonita, tu és… mas só vais entender isso depois de perceberes que não é só a magreza que pode abalar geral.
     Falando em magreza, depois dos teus 5 anos vais ganhar peso. Muito peso. Não destrói tuas mãos batendo nos coleguinhas de escola por isso, tua mãe vai padecer demais a cada sinal de saída na escola. Usa tua inteligência pra “quebrar” eles. E não esquece: gaúchos não são burros, apenas não falam “você”… um dia vais ter tanto orgulho disso que as pessoas que não falam como tu falas vão te odiar.
     Na adolescência, te mantem com a tua cabeça, vais te dar muito bem se fizeres isso. Não segue os conselhos de quem vai quebrar a cara. Mesmo que te ridicularizem por isso, um segredinho, aqui entre nós: todos os/as “populares” da tua escola não vão ter o happy ending que vais ter. Não deixa que as palhaçadas que te dizem te abalem. Não vão abalar. Teu nome não é Carrie, mesmo que um dia te sintas na pele dela quando chegares aos 16, isso passa.
     Entende uma coisa: teu lugar favorito vai ser sempre dentro da tua cabeça, mesmo quando ela tá virada em um campo de guerra. Vais ter longos dias e belas noites socada dentro do teu quarto, olhando pro teto, ouvindo música e fazendo mil e um labirintos mentais na procura de ti, revirando baús de lembranças, escrevendo poemas e histórias mentalmente … ou só pensando mesmo. Tua dispersão vai ser uma das tuas características mais fortes, lide bem com isso. Ah, e matar pessoas mentalmente é bem legal sim, não fica te culpando por isso.
     Segredos, todas as pessoas tem os seus. Tu também vais ter os teus, não compartilha eles com ninguém se não queres que as pessoas saibam. Quem tu achas que é “melhor amigo” também tem alguém que ele acha que é “melhor amigo”. Todas as pessoas tem “melhores amigos”. Um segredo deixa de ser um segredo quando alguém além de ti ouve ele. Vais ter teus segredos bem guardados graças ao teu aprendizado sobre as falsas amizades e sobre individualismo.
     Papéis, papéis, papéis… não são um problema mental digno de psicólogos… tu vais ser aficcionada por papel e lápis, vais escrever quilômetros e quilômetros de palavras. Escreve tudo que te der na cabeça, é teu escape do mundo que tanto te incomoda. Outro segredinho: teus diários vão ser iniciados no momento que adquirires escrita. E tu vais te orgulhar muito disso.
     Não sofre por antecipação… tu vais fazer muito ao longo da vida, entende que enquanto  a tragédia não aconteceu, ela ainda não é uma tragédia. Mas te conforma cedo com o que te incomoda e tenta esquecer, tua memória vai ser tua maior aliada e tua maior inimiga durante a vida inteira. Ninguém lembra eternamente uma dor, um dia ela passa e a gente esquece como foi. Acredito que nunca vais entender isso.
     E por último, e mais importante: te deixa levar pelo vento, não te reprime tanto. Não te desacredita tanto, isso vai te podar as asas. Não te azeda tanto, não podes ser  uma velha de 90 anos aos 20, só porque a vida não é como tu idealizou. Lembra do “não”? Pois é, nem depois de 100 anos vais aprender a lidar com ele. Mas não deixa ele te esmorecer.
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                                                                 Tenhas uma boa jornada, pistoleirinha…
                                                                  Longos dias e belas noites,
                                                                  Debora, aos 25.

Ka is a (hotwheels) wheel

  Em meados de 2003 eu li um livro por duas vezes seguidas.
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     Foi um período difícil em que eu estava numa onda violenta de emagrecimento, com uma rotina caótica e tomando remédios para emagrecer. A insônia que eu já tinha havia ido aos extremos, fazendo com que eu dormisse às 5 da manhã e acordasse logo mais às 6h45 porque tinha que sair pra dar aulas voluntárias… final do magistério, precisava de experiência pra encarar o mundo cão.
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     Naquele tempo eu era sócia de uma biblioteca que hoje em dia não existe mais, ficava no 2º piso de uma farmácia muito conhecida aqui na cidade. O preço anual era bom para uma estudante que não tinha salário nem mesada. Vivia lá dentro. Dois livros semanais para mim, um infantil pro meu irmão mais novo, retirados religiosamente nas quintas.
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     No período em que percebi que a minha insônia tomava uns ares meio psicóticos, decidi parar de jogar paciência iluminada por uma lanterna na madrugada e ler algo, já que era pra ter atividade cerebral, que fosse com algo útil. Eu não costumava ler antes de dormir porque quando eu lia, me agitava ainda mais e dormia menos ainda… mas o ponto a que eu havia chegado, não tinha o que pudesse ser pior.
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     Naquela semana optei por Insônia, um livro todo detonado, imeeeeenso, do autor que eu já era fascinada. Foi a companhia perfeita pro momento que eu passava.
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     Engraçado que eu sempre tive o hábito de manter diários. Sempre, até hoje… e na época eu gostei tanto de insônia que eu decidi reler. Nas duas leituras, tomei notas alucinadas de trechos que eu havia gostado do livro. Minhas citações favoritas, por assim dizer. Engraçado que o que eu mais me lembro era a fascinação que eu tinha criado pelas três deidades, citadas no livro, que comandavam a vida – uma tecia, a outra media e a última cortava. Início, duração e fim da vida de qualquer ser humano que já passou, passava ou passaria pela terra.
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     Das citações mais fodas do livro, anotei num caderno preto que eu tinha a seguinte citação:
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Simplesmente o que vocês chamam liberdade de escolha faz parte do que chamamos ka, a grande roda da existência." (Stephen King)
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 Na época eu não entendia o tal KA. Nem sabia bem o que era… circulei, coloquei pontos de interrogação pra ver se anos depois eu achava uma definição que se aplicasse à tal grande roda da existência que não fazia sentido nenhum pra mim. Mas eu achava a citação fodástica.
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     Pois bem, como é conhecido, este ano tatuei o KA no meu antebraço. Lindo, cíclico, girando, comandando tudo… e foi a partir daí que o tal KA “kaotizou” a minha vida me dando twists insanos. O mais engraçado de tuuuudo que me aconteceu, são os seguintes fatos:
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     … durante as limpezas da casa achei este caderno, e no meio da seleção do que eu guardaria e do que eu colocaria no lixo, me aparece a citação acima exposta com os benditos pontos de interrogação… eu nunca teria imaginado o quanto o KA teria me ensinado de 2003 pra cá e, principalmente, o quanto ele passaria a fazer sentido e me nortear nas horas de insanidade absoluta. Ri de mim mesma pela minha ignorância juvenil e fiquei feliz por ver que o KA era menos recente e transitório do que me parecia.
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     … fato mais bizarro que o anterior foi o que me aconteceu hoje, menos de 30 minutos atrás: ontem numa limpeza da biblioteca da escola, a bibliotecária separou alguns títulos para doação, dentre eles – adivinhem a ironia do KA – Insônia, de Stephen King. Me senti como Roland ao receber o livro em mãos. Mas isso não é a ironia da coisa que eu chamo de pai do destino. A ironia mesmo aconteceu HOJE, AGORA. Quando, ao cadastrar livros novos na minha estante do Skoob, fui ver os dados do livro e achei um carimbo de biblioteca: o livro foi doado à biblioteca da escola por uma outra biblioteca. A biblioteca do segundo piso da farmácia.
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     A biblioteca do segundo piso da farmácia. A biblioteca que eu era sócia. O livro que eu li duas vezes em 2003. O 2003 que tinha um caderno preto com uma citação sobre KA que me fazia um sentido apenas parcial. O sentido que eu encontrei depois de velha e tatuei. E depois de tatuada achei o caderno e relembrei 2003… … … KA is such a fucking little wheel…

De quando eu, de fato, descobri o amor

… para ser lido ao som de Someone like you

Esses dias tive um surto psicótico. Daqueles de quase morrer… de chorar de soluçar como uma guria histérica que teve a primeira desilusão amorosa. E foi, tarde mas foi.
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Estava em casa, na minha rotina de sempre quando, ouvindo um cdzinho, me apareceu Someone Like You com um solo que chama o ouvido a prestar atenção. Sentei pra sentir melhor a melodia e ver o que a gordinha tinha pra dizer. Foi o que bastou pra me destruir. Eu andava nostálgica desde o dia anterior… achava que pudessem ser efeitos de uma TPM fora de hora, ou saudade do meu Morfeu que está passando uns dias no SPA da vovó, ou stress, ou fome, ou qualquer coisa. Mas Adele conseguiu desencadear uma reação que me abriu o peito. E eu duelei comigo mesma pra botar pra fora o que me perturbava.
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Assumi, entre muitas negativas e contra minha própria vontade, o que me incomodava e passou a incomodar ainda mais: assumi uma perda que eu nunca pensei que tivesse sido tão grande na minha vida, assumi um amor perdido que eu nunca assumi nem pra mim.
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Nessas minhas histórias de ser fria, ser durona, de o amor não existir, vi o amor passar debaixo do meu nariz e desprezei, ignorei completamente. E nesse dia dilemático que doeu até que eu cansasse e fosse dormir, eu assumi ele, revivi tudo mentalmente e sofri o que estava engasgado desde que eu perdi a perda que eu não sabia que havia acontecido pra mim.
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Não foi uma história de amor digna de filmes, mas eu a descobri minha, e me orgulho de ter tido forças pra assumir, mesmo que tarde, tudo o que eu senti. Melhor que isso: exorcizei, limpei o coração e percebi erros de trajeto que nunca tinham me ocorrido antes.
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Posso dizer que não é o tipo de história com final heroico, nem de happy ending. Mas eu consegui expor o que me aconteceu durante todo o período que me estremeci de paixão em uma carta quilométrica que enviei logo que coloquei o ponto final. Pedi que não me fosse enviada resposta. Não quero repensar essa história, ela terminou no momento que eu consegui tirar aqui de dentro meu hóspede.
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Vou transcrever alguns trechos da carta, vale a pena ser lida novamente (por mim mesma). Se leu até aqui, não espere nomes. Quem conhece a história, conhece. Quem não conhece, não precisa saber de quem se trata.
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“(…)Vou evitar as formalidades clássicas… nunca fui formal e nem vou ser agora. Sabes como sou, não preciso de apresentações.

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Hoje, por um acaso do destino, baixei uma música que te tirou de onde eu te mantinha trancado dentro de mim. Se quiser parar de ler, agora é a hora. Antes de eu soltar tudo que eu nunca soltei de fato… aquilo que eu mantive velado até agora que tomei coragem pra abrir meu peito.
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A música diz o seguinte:
‘I heard that you’re settled down
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That you found a girl and you’re married now
I heard that your dreams came true
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Guess she gave you things, I didn’t give to you
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Old friend
Why are you so shy?
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It ain’t like you to hold back
Or hide from the light
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I hate to turn up out of the blue uninvited
But I couldn’t stay away, I couldn’t fight it
.
I hoped you’d see my face and that you’d be reminded
That for me, it isn’t over
.
.
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Never mind, I’ll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
.
Don’t forget me, I beg, I remember you said
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead
.
You’d know how the time flies
Only yesterday was the time of our lives
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We were born and raised in a summer haze
Bound by the surprise of our glory days
.
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I hate to turn up out of the blue uninvited
But I couldn’t stay away, I couldn’t fight it
.
I hoped you’d see my face and that you’d be reminded
That for me, it isn’t over yet
.
.
.
Never mind, I’ll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
.
Don’t forget me, I beg, I remember you said
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead
.
Nothing compares, no worries or cares
Regrets and mistakes they’re memories made
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Who would have known how bitter-sweet this would taste
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Never mind, I’ll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
.
Don’t forget me, I beg, I remembered you said
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead
Sometimes it lasts in love
.
But sometimes it hurts instead’
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Eu imagino que a essas horas já estejas com tudo mais do que entendido, mas eu preciso falar… e como falar não dá de ser olho no olho, eu decidi escrever.
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A verdade que eu nunca assumi foi o quanto tu mexeu comigo desde o começo… de uma forma que nunca ninguém mexeu e, apesar do senso comum que isso soa, eu realmente te amei e nunca consegui te tirar da minha cabeça. Nem depois de tanto tempo.
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Não pensa que isso foi depois de esse ou aquele ocorrido. Não. Não tem nada disso. Foi antes disso que tu já tinhas te entranhado na minha cabeça, foi no começo,(…)… as tuas trollagens, tuas risadas. O conjunto da obra me ganhou. Eu, que sempre tinha sido tão fria e durona me vi amolecendo pouco a pouco por uma criatura (…) que eu nem sei daonde surgiu, contando uma piada idiota de “bom diaê” e que marcou. O DVD de asneiras com o Bátema e uma foto do primeiro churras no menu principal, as piadas idiotas em horas indevidas(…)bolão de lovely… bah, e as cantorias? Nunca mais ouvi My Immortal e Refrão de Bolero.
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Foi só besteira juvenil… mas mesmo hoje não esqueço da tua voz, da tua risada mais histérica, e nem do teu cheiro que eu pouco tive a oportunidade de sentir. Teu lábio marcado… ahahaha. Nem sei o que comi ontem, mas lembro cada detalhe teu.
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Acontece que o destino mandou e foi como tinha que ser desde o início. Não estou te pedindo nada, nem quero que me respondas, só quero me abrir e ver se me livro desse peso que eu carrego desde que cruzei contigo a primeira vez na FURG. Tu, as tuas bermudas de mil bolsos e o teu caminhar mancado por causa do long(…).
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Toda aquela pose de machona que eu levava, tudo mentira… quer dizer… mentira a partir do momento que eu percebi o quanto me movias. Eu tinha medo de te assustar, de fazer com que te afastasses de mim se eu um dia tentasse falar algo. E eu até cheguei perto de te falar aquela vez no lago (…) lembra? Mas nunca consegui. Não era por falta de coragem… era por achar que eu precisava te ter próximo, nem que fosse só como amigo.
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E aí veio o tempo em que (…) a distância pegou pra mim. Perdi a conta das noites que passei em claro escrevendo escrevendo escrevendo sem fim e aos prantos pensando uma maneira de conseguir tocar adiante as coisas. Não que eu fosse morrer, mas ficou mais difícil. Mas apesar disso, tu te mostraste leal a mim, não sumindo. E não sabes o bem que tu me fazias quando ias no departamento pra jogar conversa fora… e eu, sempre desajeitada, acabava correndo contigo (…). Eram uns poucos minutos, mas tu iluminavas meu dia com aquilo. E as idas ao Rosa nas sextas… era tudo o que mantinha meu pé no chão.
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Foi quando veio teu namoro, e eu nunca vou esquecer o dia que (…) te vi com ela, no fim de um beijo. Naquela noite eu bebi tanto, tanto, mas tanto… que era anormal pro meu padrão de bebedeira. Escrevi tanto, risquei, rimei, rasguei. Queria esquecer, queria afogar o que eu tinha visto, queria sumir, louca e bêbada pela rua. Só piorou. E foi aí que a minha coragem de tentar te dizer qualquer coisa se esvaiu de vez. Esgotou, acabou completamente. Zero XP.
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A partir daí eu me enlouqueci… bebendo, saindo, dando em cima de geral porque eu tinha que me vingar, eu tinha que fazer doer em ti como doeu em mim. Mas eu sabia que o poço era seco, que não ia sair dor de lado nenhum. Estavas feliz e eu não podia estragar isso com acessos infantis de perdedora. Meu jeito foi o afastamento. Foi quando eu achei [alguém] e achei que gostava dele e achei que era feliz ao lado dele. Foi a pior coisa que eu podia ter inventado. Mas eu toquei em frente, esperando te substituir. O que eu não sabia era que eu não ia conseguir.
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E o relacionamento andou,(…) e eu me separei (…) do canalha. E eu sofri mais ainda, e eu chorei mais ainda… e bebi mais ainda, não dormia, não comia e já quase não tinha mais vida. E não foi por ele toda essa apoteose de fiasco, foi por me deparar mais uma vez com a verdade de não poder te ter, e por me sentir (como agora) impotente perante a situação. Me feri, me incomodei na busca de um escape. E não deu.
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Em 2009 eu tive uma apresentação na qual eu falei sobre “Friendship”… e eu fiz um vídeo com o nosso grupo clássico de caos (…). O grand finale foi a última vez que cantei My Immortal. Um colega tomou tua posição ao violão e eu cantei. Foi a pior vez que cantei. A voz não saía e eu só queria chorar. A tua ausência foi a minha fraqueza e insegurança… não só a tua ausência ali do meu lado, mas fora da minha vida.
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Os anos se passaram, o nosso contato apesar de menos freqüente nunca foi cortado e veio a tua formatura. Tu, lindo, togado e discursando… me enchi de orgulho como se fosse algo meu. E chorei escondida no meio do público por saber que era ali que acabava de vez todo e qualquer contato. Estavas indo (…). Era game over pra mim, mais do que já havia sido desde 2006.
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E mais tempo se passou… não teve ano que eu não lembrasse do teu aniversário, mesmo não falando nada. Não teve noite que eu não tenha deitado a cabeça no travesseiro sem direcionar ao menos um pensamento, uma energia pra ti. Não teve poema que eu tenha escrito que não tenha um pedaço teu. E, apesar de toda essa dor que eu carrego escondida, muito me conforta saber que tens tido uma vida feliz (…).
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Não vou te alugar mais com tantas lágrimas que já proferi por aqui. A carta toda está permeada de “chorei” , “bebi” e “sofri”. Não quero que penses que o que senti por ti só me trouxe dor. Pelo contrário… era o que me estimulava a cada dia que eu pensava na possibilidade de te ver, ouvir tua voz, ver teu sorriso escancarado, nem que fosse só de passada e ouvir o que tinhas pra dizer, mesmo quando eu ficava nervosa que nem guria nova e virava café por cima de mim mesma na tua frente.
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Gosto de relembrar tudo o que passei do teu lado, mesmo sabendo que eu vivi um platonismo que eu mesma criei. E gosto de saber que eu não sou tão fria para sentimentos como eu sempre pensei que fosse. Fico feliz em ter tomado forças pra admitir pra mim mesma e, conseqüentemente, pra ti o que sinto. Acho que agora eu te exorcizo de vez.
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Estou descobrindo que ter te mantido trancado num quartinho num canto do meu cérebro não foi solução, tu sempre deu um jeito de escapar de lá e me assombrar, me lembrando que fracassei… o segredo era ter te desprendido de mim desde o início. Parece assunto de esquizofrênico, mas só eu sei como foi conviver com as lembranças de ti. Mas esquece… esquece isso tudo que falei aqui, esquece… eu só precisava mesmo desabafar, me abrir… pra dizer que eu nunca te esqueci, que tu nunca saiu da minha cabeça… nem do coração. Por mais difícil que tenha sido pra mim, agora eu vejo que abrir o jogo é menos trabalhoso do que lidar comigo mesma nas noites em que sonho contigo e acordo feliz como uma boba alegre. E não te preocupa, eu não vou “babar muito pelo Sawyer” (lembra dessa dedicatória no DVD?)… eu já babei demais foi por ti. E acho que estou cansada de tanto carregar esse incômodo em mim… não que tu sejas um incômodo, nunca foste. Mas as lembranças e a frustração se tornaram incômodos constantes. Há muito tempo.
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Já me estendi demais e nem sei se chegaste até aqui, mas fica tranqüilo. Eu vou bem por fora. Me formei, Saí de casa, fiz meu piercing, me tatuei… estou levando a vida que sempre quis. Sou professora de inglês, ganho bem, crio gatos, sou administradora do stephenking.com.br e até na Polônia eu já andei dando entrevista sobre Stephen King. Estou vivendo das minhas paixões. Só faltou uma… e dessa eu estou tratando de esquecer.
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Te agradeço, (…)… por seres quem és, por teres sido quem foste comigo em todas as ocasiões, porque mesmo quando foste mais troll nos deboches, ainda assim foste de uma gentileza bárbara comigo.
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Quem sabe um dia a gente se reencontra. Um beijo, dessa vez, o último. Te amo.
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                                                                                                                                            Debora.”

No cinema com os alunos

Chego ao cinema com duas turmas da escola em que trabalho, no cinema havia outra escola na mesma sessão.

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Vem a babaca:
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– Debby! O que estás fazendo aqui?

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– Vim comprar uma tanga comestível e um pinto de plástico   Tô de dieta, vim aqui pra me pesar.

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– Hahaha sempre fazendo uma gracinha, né Debby?

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– Ah sim, eu sou sempre uma gracinha!

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Depois se eu cometo um homicídio quem vai presa sou EU!

CUma?

Minha mãe, bem bonita que é foi ao meu trabalho me levar aqueeele remedinho pra cólicas (Não, Atroveran, não vou fazer teu marketing, tá?).
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Uma das minhas colegas de trabalho foi me alcançar o tal remedinho e começa a pérola da ostrinha:
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– Foi essa a tua mãe que sofreu uma isquemia cerebral?
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– É, acho que sim, ainda não conheci minhas outras mães…

Tu já ficou com alguém???

 Estava lembrando com meus botões um ‘causo’ que me aconteceu quando eu tinha lá meus 9, 10 anos de idade, tempo em que eu ainda gostava de ir pra praia salgar a bunda e ter ensolações e queimaduras de mãe-d’água.
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    Numa dessas indiadas farofentas, aqui pelo Cassino mesmo (numa das nossas viagens para os natais com a família), estava eu na água da praia – um diazinho até meio nublado – e eu me imaginava sendo a Ariel, a Pequena Sereia… me achava o máximo! (e era o ó do boró kkkk)
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     Não é que me aparece um menino nadando ali nas proximidades do meu “fundo do mar”? Um menino moreno, de cabelos compridos e o resto eu não sei porque sou péssima fisionomista. O tal menino foi direto:
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– Oi, qual o teu nome bonitinha?
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Eu, ser de sutileza infinita respondi:
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-Bonitinha é o rabo do cachorro! (minha mãe é contra palavrões e se ela descobrisse que falei eu acho que morria) Vai pastar seu maricas de cabelo comprido! (sim, maricas… porque eu li em algum livro)
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O menino, não satisfeito me perguntou:
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– Tu és daqui?
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Eu, ainda bem Deborinha mesmo:
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– Sou e não sou .
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O menino, com aquela cara de “liga pro hospício que essa aí tem que ser medicada”, muito educado:
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– Como alguém pode ser e não ser de algum lugar? Eu sou de Bagé, venho pro Cassino com os meus pais no verão.
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Eu, muito “expliquenta” que era, sempre perdendo a oportunidade de me calar…
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– Pois é, eu nasci em Rio Grande, não no Cassino e me mudei pra São Paulo quando eu tinha 5 anos porque meu pai foi trabalhar lá, daí a minha mãe deixou a faculdade, meu pai alugou um apartamento no décimo andar na Moóca e fomos morar no apartamento do Edifício Califórnia na Avenida Paes de Barros eu, ele, meu irmãozinho que na época era um bebê-nem-tão-bebê de um ano e minha mãe e mais a minha avó que não é bem minha avó mas é minha tia que criou minha mãe e eu chamo ela de vó porque ela cuida de mim que nem vó cuidaria e daí eu moro lá o ano inteiro e volto pra Rio Grande todos os natais venho de viagem de carro o dia inteiro na estrada e eu passo mal e vomito mas eu gosto daqui porque eu nasci aqui e como é verão eu venho pro Cassino com a minha família pra passear.
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O menino, cansado e quase dormindo me larga a ostra que geraria a minha primeira pérola mais surreal:
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– Tu já ficou com alguém?
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(cmofas///////) Muito certa da resposta, me enchi de razão!
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– Mas claro que sim, eu fico todos os dias, com o meu pai, a minha mãe, meu irmão, minha tia Size e mais quem vier… ficamos sempre lá em casa, somos muito unidos!
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(dããããããã)
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E o guri, muito paciente:
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– Mas tu sabe o que é ficar?
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– Claro que eu sei, é um verbo, seu abobado! Verbo que fala sobre a gente permanecer em algum lugar, oras.
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– Não, eu digo ficar, de dar beijo na boca e por aí vai…
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(ãhn????)
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– Ah, tu fala disso? Mas isso é namorar!
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– Não, por um dia só é só ficar, namorar é mais comprido.
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– Ah, então eu não fiquei, não fico e nem quero ficar com ninguém nunca na minha vida porque dar beijo na boca troca muitas bactérias e dá sapinho e herpes! E tu vai pra puta que pariu que eu não quero saber desses assuntos aqui comigo! E se tu disser pra minha mãe que te falei que é pra ir pra puta que pariu eu ainda te cago a pau e te afogo, seu cabeludo bixona!!!
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É, nem sempre o Aurélio me ajudou… :s

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