E aos 29 com o Retorno de Saturno

Decidi começar a viver…

(Renato Russo)

          Ah, os vinte e nove anos… aquele momento em que a vida cobra, em que a vida começa a mostrar o peso e nos testa. Foi feita a lição de casa? Aprendemos o que viemos designados a aprender nesta terra de provações? Estamos focados no destino ou estamos aproveitando a viagem a cada quilômetro vencido?

     Renato canta os desafios dos 29, mas é óbvio que eles vão além da canção… afinal, o problema pessoal de cada um sempre é mais difícil que o dos demais mortais, não é isso o que se pensa?

     Estão se encerrando os dias do vigésimo nono ciclo de vida, e que decisões foram tomadas? A decisão de começar a viver, como já mencionada? Ou a decisão de continuar se prendendo a correntes invisíveis que isolam a nossa vida de maneira a não nos permitirem uma vida plena?

     Da minha parte, eu decidi começar a viver. Já vi amizades começando e terminando. Já me perdi em mim mesma e me reencontrei. Já pensei e repensei minha fé. Já experimentei o sabor do amargo e do doce, caí e levantei, chorei de rir, ri de pavor, vi meu lado mais furioso e também o mais brando. De cada passo dado uma experiência ficou.

     É bonito chegar a um ponto da vida em que se repensa atitudes passadas e se percebe o crescimento. E nem tão bonito notar algumas estagnações. Mas lindo mesmo é poder escolher com qual “eu” permanecer. Eu gostaria de voltar aos meus 19 com a minha consciência dos 29. Seria juntar a potência de um corpo novo a uma mente de fato aberta.

     Comemoro os ganhos como guria nova, mas aceito as perdas como uma senhorinha chegando à terceira idade. Tão mais fácil vencer, mas tão mais importantes as perdas que tanto trazem de lição, quaisquer que sejam. Aos 29 me sinto mais resignada. Não diria mais mansa, mas mais tolerante. Em outros tempos eu partiria pra cima, hoje em dia eu peço licença antes de partir pra cima. Estou na metade do meu caminho, mas eu chego lá.

     Vi gente chegando e gente partindo. Já vi a festa cheia, e agora observo o salão que esvaziou. E cada riso, cada choro, cada palavra proferida serviu de peça-chave para o panorama de mim mesma. Não guardo mágoas, nem rancores, sequer remorsos. Apenas saudades de tempos diferentes, de memórias que valeram a pena.

     Foram 29 anos trilhados na busca de acertos, mas pavimentados pelos erros. Aprendi, dentro da minha procura, que o erro é a parte mais fundamental de qualquer jornada humana e benditos sejamos nós, tão errantes e tão errados por podermos nos corrigir.

     Das luzes e sombras que compõem meus 29 invernos, o som e o silêncio, a companhia e a solidão foram as discrepâncias mais necessárias para o meu autoconhecimento. Meus excessos em ambos foram a maneira que achei de encontrar a minha própria sintonia, em meio a barulhos extremos e silêncios sepulcrais, e em meio de grandes grupos e da mais completa solidão. E se eu puder escolher, fico com a minha solidão barulhenta, é onde eu consigo melhor florescer.

     Se é de convenções que muitas vezes levamos a vida, há que se mencionar as convenções humanas obrigatórias, como a carreira… e essa é a parte mais florida da minha trajetória. Eu consegui, na primeira tentativa, achar o mapa para o meu tesouro, e amo o tesouro que encontrei ali. Minha carreira é o meu norte e, de fato, achei na minha profissão a felicidade. Se isso me dará bons frutos, ainda não tenho muita certeza, mas que me enche o coração de alegria e amor a cada dia, disso estou certa.

     Tenho uma família que aprendi a aceitar, tenho saúde, tenho fé inabalável em criaturas de outros planos que talvez nem existam, tenho animais de estimação que são minhas filhas de coração, tenho amigos complicados que me enchem os dias, tenho livros e canções para me embalar as noites insones… e tenho sorte pelos meus 29 anos bem vividos.

     A vida, embora seja mais de pranto do que de festa, pertence a quem sabe bem vivê-la e, enquanto eu puder ter olhos de Poliana para encontrar ao menos um sorriso a cada dia que eu acordar, serei grata por estar respirando.

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