Os dias tempestuosos...

Hoje a saudade foi…

Dia 31 – … sempre estive cansada…mas sentir-se cansada e estar desanimada às vezes se confundem. Cansei de batalhar, parece que o norte que me erguia evaporou… começo a admitir que, de fato, por um tempo acabei depositando minha razão de ser sobre ombros inconstantes. Em que momento eu vou me rever como norte? Será que ainda posso te esperar?

Dia 32 – …das comidas estranhas… hoje, num arroubo de ansiedade, fiz anéis de cebola… até a minha espreguiçadeira reclamou a falta do teu suspiro faceiro quando servi meu jantar.

Dia 33 – … dias chuvosos. Será que lembras como eram nossos primeiros encontros? Sempre abaixo de chuva… até que tiveste uma pneumonia, plena primavera. Já deletei nossa foto, molhados na parada do intermunicipal. Mas não esqueço teu abraço quente, mesmo debaixo das frias chuvas de agosto e setembro.

Dia 34 – … dos filmes de terror patéticos quando eu acabava dormindo no teu colo. Filmes de terror com câmera na mão, os exus mexicanos (os mortos, do culto dos mortos, descobri recentemente) e skatistas despedaçados. Risadas no cinema no meio de Annabelle e tu de cara comigo… não tenho visto mais nem A Lagoa Azul. Faz falta teu colo, tua mão no meu cabelo… um dia meu travesseiro vai voltar a me bastar.

Dia 35 – … do meu equilíbrio. Os altos e baixos tornaram-se uma constante. E há dias em que te odeio. Em outros nem me lembro mais do ódio e sinto a lacuna me engolir. Será que ainda te espero ou me desespero de vez?

Dia 36 – … de quando essa saudade era só de ti. Ando percebendo que tenho mais saudade de quem fui antes de ti do que de ti. Vi, na prática que, de fato, quem preciso ter ao lado sou eu mesma.

Dia 37 – …do abraço. Meu deus, como a vida me pesou hoje. E tudo o que eu queria pra aliviar isso tudo era me afogar no perfume do teu abraço. Tem dias que lembro de ti e desabo no caos.

Dia 38 – … da amizade que eu pensei haver sido construída no meio da relação. Hoje eu só queria alguém que apoiasse a minha rebelião interna. Ninguém seria tão capaz… Ninguém se importa.

Dia 39 – … da companhia na ida ao trabalho nas segundas de manhã. Agora todos os caminhos parecem distantes e silenciosos demais. Na verdade, a muralha de silêncios que se ergueu ao meu redor parece me sufocar faz tempo.

Dia 40 – … da divisão da carga com alguém que por vezes pareceu importar-se. Lembro como se fosse agora as vezes em que me excedi no mercado e acabei por contar – não sem brigar para que não te sobrecarregasses – com a tua ajuda para carregar as compras, muitas vezes com as nossas mãos entrelaçadas por entre as alças…

Dia 41 – …do dinheiro que gastei contigo. Convenhamos, nem todas as saudades são bonitas. Que ódio me causa lembrar deste dinheiro perdido com alguém tão leviano e falso.

Dia 42 – … de quando teu abraço ainda me enganava. Nosso reencontro hoje só me deixou mais e mais claro o quão vil és. Debaixo da máscara do cara bonzinho sorria um lobo. Lobo este que foi capaz de aniquilar quem um dia eu fui. E restou isso… a sombra de uma fortaleza que ruiu aos pés de um qualquer interesseiro e irresponsável.

Dia 43 – …de quando as manhãs de ressaca não se resumiam em culpa e lágrimas.

Dia 44 – … do sono que me causavam as tuas músicas favoritas. Hoje, tomada pela insônia, concluo – ao amanhecer – que nunca entenderás na prática o que estas canções significam… corações de pedra nunca entenderão a profundidade de uma declaração de afetividade densa como “I walk through the gardens of dying light / And cross all the rivers deep and dark as the night / Searching for a reason why time should’ve passed us by / With every step I take, the less I know myself […] But gods just laugh at my face”. Lamento a superficialidade do teu espírito.

Dia 45 – … da minha mente distraída. Quem inventou esse negócio de pensamento recorrente? Quando essa crise de abstinência afetiva vai reaver a minha harmonia psicológica? Eu não aguento mais a perturbação desta frustração.

Dia 46 – …da minha inteligência. Em que momento eu me tornei a mulher burra pronta para ser enganada?

Dia 47 – … de quando a saudade era somente das coisas que me remetiam a ti, porque é mais fácil lidar com a depressão inicial que te afoga em lágrimas do que com as verdades que o tempo revela. Pobre R. que desconhece o chão estéril e movediço onde começa a firmar os pés. Não. Onde ACHA que firma.

Dia 48 – … quadragésimo oitavo dia e eu ainda não aprendi a controlar os arroubos emocionais que me dominam quando sozinha em casa. Vou do pranto ao riso histérico, da raiva à compaixão. Fiquei à deriva de um mar afetivo onde eu preferia me afogar a continuar remando.

Dia 49 – … de tudo o que um dia eu pensei existir. Por 7 meses quase acreditei ser possível existir o amor correspondido, o abraço que de fato troca energias e conecta dois emocionais, o beijo com desejo sincero. Quase. Experimentei só mais uma vez o fel da mentira, da traição (“apunhalar” o outro inesperadamente é a pior traição) e da transformação do meu ser em objeto. Um dia lamentei esta partida. Hoje lamento o dia em que levantei da minha cama disposta a conhecer mais um cafajeste. Perdi 7 meses da minha vida, muitos dígitos da minha carteira e a minha dignidade por não haver respeitado o meu sono em um sábado nublado.

Dia 50 – … hoje quem lamentará qualquer saudade não serei eu. Dos passos que me aguardavam na retomada da minha solidão, a decisão mais certa que assumo é retomar minha contagem: se foram 7 anos de solidão antes da jornada fatídica, agora a contagem há de ser vitalícia. E pobre dos que cruzarem o meu caminho… passarei a retribuir tudo o que o passado já me ofertou: das mentiras às traições; do falso amor ao interesse financeiro; e da possessividade à quase psicose. A fênix renasceu. E renasceu do inferno.

Chorei, chorei…

O homem que eu amava eu matei…

(Primeira parte aqui)

(Segunda parte aqui)

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