Bem sei o quanto este título soa redundante, mas eu precisava enfatizar o tipo de libriano de quem falo. E este me acompanha dos anos de adolescência… velhos anos, bons anos. Nome fictício pra proteger a identidade do boy, vamos ao que interessa.

1999
     Eu tinha 12 anos, estava recém me adaptando a uma nova escola, uma nova turma, sétima série, tudo novo… e me aparece esse menino. Ele andava com os dois caras mais populares da escola. Os dois caras que todas as gurias queriam a todo o custo. Existia um rodízio forte ali, e uma coisa igualitária, porque eles davam chance pra todo mundo.
     Já o Joãozinho, esse era a vela. Enquanto os guris que andavam com ele tocavam terror, ele ficava ali, na dele, esperando alguma coisa acontecer. E eu achei aquele guri a coisa mais linda que os meus olhos adolescentes tinham visto até então. Branquelo, cabelo bem preto e os olhos de um azul que só perdia pro azul do céu. Ahhhh, a adolescência.
     Acordar pra ir à aula me fazia pensar no Joãozinho, que estudava na sala do lado e certamente estaria lá, porque era tão assíduo quanto eu. Ai, o Joãozinho. Meus questionários eram todos escritos pensando no tipo de coisa que eu queria perguntar a ele, a jogada sempre era perfeita… fazia meia dúzia de amiguinhas responderem e depois fazia alguém entregar pra ele.
     Eu era pra ele tão invisível quanto ele era invisível pra guria que ele queria pegar na época. Era quase um jogo de esconde-esconde. Comecei a perder a invisibilidade numa ocasião em que consegui, por uma força do destino, estabelecer diálogo com ele… mas era um INFERNO falar com ele, já que eu tinha que puxar as perguntas. E ouvir as respostas. E ver o silêncio se estabelecer.
     O ano seguiu a passos largos e ele simplesmente me ignorava completamente… mal sabia ele que eu havia descoberto o aniversário dele e planejava algo MAIOR. E que seria meu último tiro na direção dele. Levei meses preparando uma carta quilométrica cheia dos “eu te amo” e poeminhas que escrevi para ele. Amava sem nem conhecer ele de fato, ora vejam.
     O dia chegou, mandei a carta por uma amiga em comum. A carta era imensa… e junto foram uns bombons, aquela papagaiada infantil que só quem tem 13 anos não sente vergonha em fazer. Ele recebeu, enfiou tudo no bolso e não deu resposta (sim, eu espionei a entrega). Me roí de ódio. Nem ao menos um sorriso!!! AAARgh.
     No dia seguinte, ele me entregou um bilhete em mãos e eu, naquela expectativa louca de achar que era algo positivo, um beijo, qualquer coisa… e ele me diz: lê sozinha. Corri pro banheiro da escola, me tranquei num dos boxes, tremendo de cima a baixo e…
     “Te liga, gorda.”
     A letra não era dele, mas aquilo não tinha perdão. Com sangue nos olhos, procurei ele. A minha resposta àquilo tudo era uma: “A vida dá voltas. E aí quem vai ter que se ligar é tu.”

2013
     Eu já havia reencontrado ele virtualmente em meados de 2007, mas o papo não foi longe, o orkut não ajudava muito… mas em 2013 o reencontro foi real e físico.
     Facebook, muita conversa, troca de telefones, sms. Dei abertura, porque acho que o passado é o passado e é por lá que ele deve ficar. Amizades nunca são demais.
     Depois de uns meses conversando, decidimos sair pra passear. Fomos trocar uma ideia em um ponto de encontro comum aqui da cidade. Ele estava morando a duas quadras do meu apartamento, olha a coincidência. Nos encontramos era fim de tarde, chegamos em casa de madrugada, muita conversa, foi um primeiro encontro e uma primeira conversa, agora reais.
      Revisitamos o passado, rimos das nossas histórias e lamentamos o futuro de alguns conhecidos nossos. em momento nenhum mencionamos qualquer coisa relacionada aos episódios mais fatídicos. Foi agradável. O cara é legal.
     Cheguei em casa com sms no celular “quero te ver de novo” e o inbox do facebook já me esperando com ele me dando oi. Assustada, fingi não ver e fui dormir.
     Dois dias depois fomos ao cinema. Mensagens mais frequentes, passeio às docas, o tempo correndo. Um dia veio a bobagem via sms: “Tem certeza que não sobrou nada daquele teu amor aí dentro?”. Eu, direta, expliquei que os anos passam e que não, nada tinha restado.
     Num sábado, mais de 2 da madrugada, frio do cão, geada grossa, recebo um sms: “Estou na frente do teu prédio, quero ficar contigo.”
     Toca o telefone, atendi:
     “Joãozinho, vai pra casa, é tarde, tá frio.”
     “Mas eu já tô aqui, me diz o número do teu apê, ou eu aperto todos os interfones;”
     “Tô falando sério, vai pra casa.”
     ” Tu não é casada, nem eu, abre pra mim, vai?”
     “Joãozinho tu tá bêbado?”
     “Churrasco lá em casa, os guris compraram cerveja, me deu saudade de ti e eu agora sei o que perdi”
     “Joãozinho eu vou mandar o SAMU te buscar aí embaixo, vai embora.”
     “Vou apertar T-O-D-O-S os interfones.”
     “304!!!!”
     Meu interfone tocou imediatamente… e ele, com o dedo cravado no botão lá embaixo, não soltou em momento algum. Aquele barulho intermitente no corredor silencioso era de dar medo. Tirei do gancho e deixei pendurado, não ia aguentar aquele inferno.
     “Viu como eu estou aqui? Abre pra mim”
     “Na educação não adiantou, então vou ser direta: Por mais que sejas um amor, somos incompatíveis. Lembra de quando eu te falei que a vida dava voltas? Aí está a tua volta. Boa noite.”
     Desliguei, coloquei o celular no modo voo e fui para o terraço acompanhar a decisão dele em ir embora. No escuro ele não me via. Ele ficou mais uns 10 minutos fuçando o celular, até que desistiu e foi para casa.
      No outro dia, pela manhã, ele me mandou mensagem no facebook, dizendo que nunca mais me procuraria porque eu não merecia o amor dele, que eu não sabia o que havia perdido.
     Que bom que não merecia. Um cara que leva 14 anos pra reconhecer o meu valor, eu não mereço mesmo.
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