Que filmes de amor não me comovem, isto não é lá nenhuma novidade… há quem queira afirmar que existem controvérsias nisto, visto que chorei feito histérica no cinema em todas as quarenta e tantas vezes em que assisti ao Titanic de 1997. O que não sabem é que chorei a morte do meu namorado, atual marido, Leonardo DiCaprio. 12 anos, hormônios, sabe como é.

Piadas à parte, realmente há que se dizer que o gelo que corrói esse peito é um tanto indestrutível e não teve literatura, seriado ou cinema que conseguisse atingir alguma coisa… até Amour (França, 2012). O que este filme me causou foi de uma devastação tamanha que até hoje eu me questiono o bendito filme.

Não espere as babaquices emocionais de filmes bem vendidos como Cidade dos Anjos, com aquele final uó, ou o clássico Romeu e Julieta dos tempos do Ariri Cachaça, porque nenhum destes trazem qualquer carga emocional que se compare a Amour. Esqueça TODOS os romances que te fizeram chorar… Amour é além de qualquer um deles.

     A começar por uma trilha respeitável e para ouvir com devoção (Schubert, Bach, Beethoven), a história contada por Haneke é lenta e gradual como só um amor que cruzou estações, anos, décadas pode ter acontecido. O filme é de uma lentidão e silêncio extensos e quase insuportáveis, tal qual a vida que não permite acelerações para que os desfechos logo sejam delineados. Para uma pessoa ansiosa como eu, beira a tortura. Este Band-Aid não pode ser arrancado de uma tacada rápida e ligeira, ele precisa ser sentido, cada milímetro de dor e de fios arrancados precisam ser degustados. Assim é Amour, um filme para ser sentido a cada minuto isoladamente.

     Do enredo, cabe que se diga que é uma história “comum”.  Observamos a um casal, com uma história de vida matrimonial extensa, ambos gozando aposentadoria e filhos criados que chegam ao ápice conjugal e, somado a isso, à decadência de suas vidas mortais. Não entrarei em detalhes a respeito, mas cabe que se diga que os personagens secundários de fato são secundários, eles não fazem muito senão suprir as lacunas do filme e remontar histórias do passado do casal, como a cena em que a filha de ambos comenta quando ouvia os pais fazendo sexo e acende a problemática do filme. Eles se amam, e partem em breve.

     E agora? Depois de tantos anos, como poderia se materializar a perda que sempre conhecemos, mas nunca queremos enfrentar? Amour lida com isso, com as vésperas do final de um amor. Qualquer romance acaba com o “Viveram felizes para sempre”, mas quando se fala de vida real, o “felizes para sempre” se materializa na rotina e num amor bem estruturado, com raízes, como o amor dos personagens principais do filme já mencionado.  Mas a morte, como diria Bradbury, é uma transição solitária…

     Este filme parte do óbvio. Casal de idosos, fim da vida, casamento bonito, relacionamento excelente, parceria. Porém, dentro deste “óbvio” ele levanta questões além do superficial. Impossível assistir ao filme e não se colocar no lugar dela, no lugar dele, no lugar de filha, de cuidadora, em todos os papéis sociais que exercemos e isso é mais um fator tocante na trama,  justamente porque tem coisas para as quais só nos acordamos quando a arte nos sacoleja. Um filme, repito, de história comum. Daquelas que vemos ou ouvimos diariamente na vida real, mas não paramos para pensar.

     Haneke brincou com a trilha, brincou com a história, brincou com o tempo e acabou brincando com o coração de quem assistiu a este filme insuportavelmente parado. O tempo, a vida são assim. A nossa pressa polui tudo. Quando este filme vai mostrar o desfecho? Quando vai ter uma ação mais agitada? Quando acaba Amour??? E então acaba o filme e se pensa: por que não durou mais? Por que este amor não pode ir além? Por quê?… Tal qual a vida, a pressa nos agita e nos perturba a visão, acabamos perdendo tempo essencial, minutos que poderiam ter sido repletos de quem prezávamos e deixamos passar. E deixamos partir.

     A visão do amor sentimental extremamente realista e crua somada a uma atuação simples e, ao mesmo tempo, genial, deram vida à pouca música que o filme libertou. Os silêncios excessivos eram o respiro de quem assistia e amargava junto com o protagonista as desventuras do fim de uma vida a dois. Boa reflexão, excelente reflexão. E de um amor e uma dor inesquecíveis, do tipo que arranca lágrimas até de uma geleira como eu. Este é um filme de sentimentos, do tipo de sentimento mais brutal que o coração humano pode sentir por um ser que não nasceu de si. O AMOR.

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