Sob o céu noturno que se coloriu de laranja eu vejo uma história sendo remontada e a pontada lancinante que me percorre é nada além de memórias que se blindam de nostalgia, para não se desfazerem mais. E os sons frágeis que me circundam me transportam para uma noite debaixo deste mesmo céu, quando as estrelas nos miravam numa recíproca cíclica e minha mão na tua encerrava o frio que poderia nos abraçar. Éramos intransponíveis, uma força transcendental única, e éramos somente nós, um, perante o vento imperdoável e o som do mar era o único a ousar nos interromper… sinto saudades de ouvir a nossa respiração tão compassada quanto nossos passos e os risos.  E o meu medo da perda já inexiste.
     A fragilidade que me abateu se apartou de mim quando eu optei por novamente dar as costas para o que me moveu. Se apartou de mim a fraqueza quando eu decidi que a peregrinação se faz melhor quando se faz só. Uma respiração, um par de mãos. Apenas um coração. E a coragem de olhar pra cima e rever as estrelas sem outro calor, me tornando vento com o que restou do som do mar dentro de mim. Eu me dissolvo, me disperso e me encontro una. E me basta a independência, meus passos já são impacientes demais e não encontram o compasso que um dia foi compartilhado. A vida é uma, bem como eu. E o caminho é sem volta, desvia os teus atalhos, pois agora me restou a linha reta que eu mesma projetei.
     Duas solidões nasceram esta noite, debaixo das lâmpadas de sódio que já foram a iluminação de uma história. Fecham-se as cortinas, varre-se o palco. Acabou o figurino, o script se auto-destruiu e o improviso agora orquestra o caos do que um dia foi monotranscendência. Junte seu figurino, apague a luz ao sair… esqueça as estrelas e deixe a mão no bolso, o frio é grande nestas noites de vento. E os meus olhos são o mar.
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