Antes que eu deixe passar em branco por ser uma desligada de datas, cabe que eu exponha o que penso.

     Como mencionado em outras ocasiões, eu ODEIO essa ideia de datas para recordar grupos oprimidos. Penso que todos os dias são dias para respeitarmos nossos iguais. Sim, IGUAIS. Somos todos sacos de carne, sangue, vísceras, ossos e outras gosmas que apodrecem e viram pó no correr do tempo.

Mas quanto à temática, costurei minha vida de amigos hostilizados por não amarem do jeito que se diz certo. Amigos, familiares, colegas, desconhecidos que viraram razão de ser. E eu nunca entendi bem toda essa coisa de amar certo ou amar errado… mais que isso, eu nunca entendi por que diabos as pessoas se preocupam tanto com a vida afetiva dos outros!
Eu mesma optei pelo celibato e pela solidão, e as pessoas não conseguem aceitar isso. Por eu ser gorda é que eu estou sempre solteira, entendeu? Mas não é isso… só aparento a solidão porque, na realidade, sou lésbica e tenho medo do que a sociedade pensaria. Teorias inventadas pelos outros que tornam para os demais muito mais fácil aceitar que alguém prefere amar o silêncio e a si mesma do jeito que é.
Penso que o mesmo vale para as pessoas que não amam dentro da forma padronizada de Adão e Eva. Nascemos assim, qual é o problema? O nosso amar muda a vida de quem? Quero conhecer vários corpos, não é o meu corpo que eu estou usando para isso? E se eu optar por ser poligâmica, qual o problema? E se eu optar pela monogamia, é o teu corpo? E se eu optar pela ausência alheia no meu corpo, eu sou menos que alguém? Meu corpo e meu afetivo, quem comanda sou eu. E se eu quero uma mulher, um homem e uma travesti, que delícia, vamos curtir a vida que é uma só! Cuide do seu amor ao invés de observar o meu.
Depois de uma vida vendo amigxs sendo varridxs para fora de casa pelos pais, amigxs que já apanharam, amigxs que já foram hostilizadxs, estupradxs e toda a sorte de coisa desumana que pode ocorrer, bato no peito com orgulho pra dizer que são as pessoas mais adoráveis que conheci. Eu nunca chorei na presença delxs, a não ser de rir, mesmo nas piores horas eu sempre notei um amor imenso ali… um amor que dificilmente se encontra nas pessoas que se encaixam bem nos padrões opressores.
Não existe preconceito pior do que a segregação.
Penso nxs filhxs que quero ter, penso nas vidas que poderão ter, penso nas possibilidades infinitas de felicidade disponíveis neste mundo que ainda é lindo. Mas a cada vez que penso em sexualidade, me dói pensar que um bebê homo vá nascer com um alvo apontando para a sua cabeça, dizendo: pode me xingar, pode me bater, eu sou homoafetivx. É crueldade demais.
Me dói fundo quando ouço as pessoas falando dos gays como o viadinho, a sapata. Me dói quando eu vejo algumx alunx receber pelas costas olhares de deboche. Me corta a alma ver HUMANOS sendo tratados com uma sinceridade e uma recepção superficiais por pessoas que não têm preconceitos, mas…
Me dói, mas me dói nem a terça parte do que eu sei que meus amigxs sentiram. Eu sei que foi mais fundo, eu sei que as marcas e as cicatrizes vão lembrando tudo o que se passou… mas eu também sei que tem gente que xs ama com força. E não vai ser ainda nessa vida que o amor vai ser livre… o ser humano não nasceu pronto pra entender o amor. Então vamos amar como sabemos e do jeito que pudermos enquanto a nossa partida não vem.

     Amo a cada um de vocês, e no momento que me identifico com umx desconhecidx do “mundo”, eu tento me aproximar. Tenho um carinho imenso por pessoas que têm a coragem de vocês. Eu queria ter essa fibra toda.

     E a quem ainda não externalizou porque a opressão não permite isso: respeita o teu tempo, não acelera o teu processo, as larvas não se transformam do dia para a noite e o abrir de asas para a homoafetividade é um renascer de fênix. Toma força, toma fôlego, e deixa o amor te guiar. Não deixa o ódio apagar a tua luz. Não existe o errado e nem o imperfeito.

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