Ontem, depois de perder o sono na madrugada, acabei revendo a única historinha de amor que me comove. E Eternal Sunshine of The Spotless Minds sempre é um aprendizado novo.

     Vantagens da solidão: perder o sono, pegar uma bebidinha, assistir um filme em plena madrugada fria sem o stress de acordar alguém ou ter que se preocupar se o filme é de gosto comum, se o volume está ruim, se ele achou o filme ruim e quer mexer na minha calcinha enquanto eu quero ver o filme.

     Engraçado que hoje pela manhã, vendo a movimentação do pessoal conhecido, percebi que anda uma febre de solteiros saltitantes, alegando o quanto é bom ser solteiro, ou espalhando as vantagens deste regime afetivo. Será que o frio chegando está deixando o pessoal mais “pseudo rebelde” ou de fato estão se convencendo do quanto a solidão nos cai melhor?

     Estou há 6 anos isenta dessa desgraça que se chama vida compartilhada. Já virei perita em analisar a carência alheia e olha… de fato, fico feliz quando sou vista pelas pessoas que me conhecem como a “solteirona”, ou quando desconfiam até da minha sexualidade. Sinceramente? Acho que ainda vou continuar casada com essa solidão por muito mais tempo.

     Não acho interessante aquele processo todo da entrega, do abrir-se para o outro, de tudo o que se faz em prol de uma coisa que vai acabar ali adiante e sempre de uma forma escrota, criando dois inimigos ou dois desconhecidos. Ele tinha pau pequeno, ela era frígida, ele só queria ver filmes de ação, ela só queria assistir Friends. Ele queria XBox e ela queria sair pra beber. Finais criam a falsa impressão de que NUNCA, NADA foi compatível.  E aquele começo mágico à moda Disney cai por terra.

     Poucas vezes , quando do fim, resta algo de um passado em comum, como aquela amizade esquisita que, no fundo no fundo, lembra do teu corpo nu e fica pensando quando vai ter uma abertura pra te levar de novo pra um lugar mais íntimo, ou lembra do teu perfume, ou aquele sorrisinho maldoso que só tu tinhas, aqueles papos que viravam noites… e aquele incômodo se instala.

          É vantagem viver sem memórias. É prudente não criar novas memórias. Assim não existem remendos emocionais que possam se descosturar e soltar alguma fera faminta dentro do peito. Claro que, por vezes, faz falta uma companhia mais específica, mas já existem soluções inteligentes para isso. Algumas precisam de pilhas, outras de ar, outras ainda, só de uma bebidinha. Não é necessário que se acorde a fera dormente para que algumas solidões se resolvam bem.

     Costumo dizer que chego em casa e sinto a falta desesperadora de um marido. É a janta que não sabe se preparar sozinha, a casa que não é autolimpante, são as gatas que ainda não sabem se servir, é o meu banho que eu mesma vou ter que organizar, porque nem a toalha se dispõe a se dirigir ao banheiro sem mim. É aí que eu largo meu material, respiro fundo, ligo um som e, cantando para desopilar do dia cheio, encaminho a janta enquanto limpo o que precisa ser limpo, tomo meu banho enquanto a janta esfria um pouco, janto e me acomodo. Então, depois de estar confortavelmente instalada para os trabalhos de correção noturnos, com um filme ou um álbum nunca ouvido, meu mate e um petisco, eu penso: como é boa essa solidão.

     Não precisa de Lacuna Inc. quem se imunizou.

Anúncios