Outro romance kinguiano que me fez fechar as páginas aos soluços. Porque sim, eu sou um fiasco. Mas era impossível outra reação, apesar dos pesares (o livro guarda suas imperfeições).

Capa da edição publicada no Reino Unido
Capa da edição publicada no Reino Unido

John Fitzgerald Kennedy, o herói da história americana que foi assassinado no meio do mandato, em 22 de novembro de 1963, num passeio em carro aberto. Morto por uma bala certeira pela mão de Lee Oswald. Na cabeça do povo norte-americano, se Kennedy houvesse concluído o mandato, os grandes problemas históricos da nação jamais teriam nascido. É o lendário deles, e não dá para debochar, já que acreditamos em justiça financiando corrupção.

King, nesta narrativa, traz Jacob (Jake) Epping que, no ano de 2011, é um professor de Inglês de meia-idade, que leva uma vida pacata com seu gatinho de estimação depois de encerrar um casamento turbulento. E sim, o cidadão-comum Jake é o herói americano.

Mas qual o ponto que liga o 1963 de Kennedy e os sapatos sujos de sangue de Jacqueline com o 2011 de Jake? Al Templeton, dono do Fat burger, no estágio terminal de um câncer, que convida Jake a ver algo na despensa de sua lanchonete, altamente conhecida pelo preço baixo e carne de origem duvidosa. Este “algo” é um suposto portal, ou fenda no tempo, que leva diretamente para 1958. Sabendo disso, o resto é só costurar.

Steve cria uma imagem do fim da década de 1950 e começo da década de 1960 impecáveis. Trabalho árduo de pesquisa, provavelmente. Traz cheiros, cores e sabores ao leitor, numa reconstrução minuciosa do passado. Não existem falhas de construção de imagem. Junto desta viagem louca no tempo, King rememora Derry, a cidade fictícia em que muitos eventos ocorreram, mas ele faz questão de acordar um em particular: o caso dos meninos, do bueiro… lembram? (quem leu S.K. sabe ao que me refiro).

Obviamente existe o trecho mimizento com paradinha para namoradinhas e muito sexo explícito, as mil e uma mortes injustas que nos remetem à cara do King rindo do leitor que sofre, os casos extraordinários dentro da vida comum… enfim, uma cópia legítima da vida humana, um passeio na galeria grotesca do que é o ser humano mesmo em meados de 60.

Lee Harvey Oswald é uma imagem cuidadosamente delineada ao longo do curso do livro, dando ao leitor, ao fim do livro,  a impressão de haver convivido com o ambiente familiar do assassino de Kennedy. Repito, a pesquisa do autor deve ter sido insana, porque os detalhes mais fundamentais batem com o que a história conta.

King fez um trabalho impressionante com 11.22.63. Nos últimos anos ele tem apresentado uma escrita mais densa, mais madura e que mexe muito mais com o sentimental do leitor do que os tempos de horror semi-gore. Se O Cemitério aterrorizava o leitor dando noites de pesadelos, a escrita atual, como 11.22.63, dá dias e mais dias de incômodo emocional, bem como foi Under the Dome. Claro que existe, como em qualquer romance sobre viagens no tempo, uma lacuna de perguntas sem resposta, isso foi uma falha grave, muito embora o romance se justifique sozinho e os leitores mais arrebatados deixem passar os erros.

Cabe que se diga que não, o passado não deve ser mudado, ele é obstinado… e que bom que é assim. A visão kinguiana para um 2011 depois de uma mudança crucial numa das linhas do tempo é a pintura de um ka merecido pela humanidade de uma forma geral, mas ainda assim não perde sua brutalidade. Não posso entrar em detalhes para não estragar a leitura alheia, mas acho que eu preferia o 2011 pós sobrevivência de Kennedy (he he).

O fim do livro é digno de Sandra Bullock e Richard Gere rodando abraçados na neve, em um longo beijo. É uma escrotice sem fim. Mas como King determina sempre, o melhor da viagem é o passeio, não a chegada. E, de fato, mais uma vez ele me concedeu um passeio estupendo, digno de aplausos em pé. É a consagração de uma literatura acessível e que mexe com o imaginário e o emocional. Mas aquele finalzinho, hein King??? Puta que pariu… Tabby está caindo no padrão de qualidade na hora de te liberar a edição dos livros!

Recomendadíssimo a todos, Novembro de 63  é um romance de ficção científica/policial/romancebabaca/sexoexplícito/pós-apocalíptico que prende os olhos que não sentem preguiça ao passearem por um calhamaço daquele calibre.  E, antes que me esqueça, vi muito de A Torre Negra ali. Aquela coisa de ka, ka-tet, a obstinação do tempo e do destino, as coisas que não podem ser mudadas, os retornos ao zero.

Longos dias e belas noites, pistoleiros!

Até o próximo livro.

Comentário maldoso: A Suma de Letras precisa demitir tradutora e revisor. Que trabalho de merda. Muitos leitores que estarão lendo a versão brasileira, acharão vários trechos confusos, e com razão, pelos erros de tradução que a revisão não percebeu. E mais, quem já leu no original vai sentir a diferença em algumas sutilezas que não causam impacto algum na versão brasileira, mas que sim, no resultado final, “amaciam” coisas que não deveriam ser amaciadas. Cogito seriamente enviar um e-mail para a Suma, catalogando os erros encontrados por ali. Falta de profissionalismo tem limites, estamos falando de uma obra literária.

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