Comecei a leitura de Marina não dando nada pelo livro… meu desprezo começou na compra. Capa bonita, sinopse inconsistente, acabei colocando ele nos rols de livros bobinhos para ler em filas. Dei total descrédito. Maldita seja eu… o livro é ótimo!

Iniciei a obra em duas filas de caixa e o livro me abocanhou, terminei o livro em um engarrafamento, abasbacada de fascínio.

O livro Marina tem um clima gótico, obscuro, cinzento e, por vezes, lúgubre aos extremos. Notam-se nele algumas contradições narrativas que se explicam ao final. O escritor é um artista que se contrapõe a um de seus personagens: enquanto o pintor desenhava com luz, Zafón desenha com a escuridão. Um espetáculo cuja luz se faz por Marina em meio às trevas.

Os intertextos permeiam o texto desde um ímpeto de Prometeus a, de fato, uma síndrome de Frankenstein anunciada. Não existe bem ou mal nas páginas de Marina, há sim, um amor incansável pela natureza da felicidade humana em si ali.  E mais amor… amor inominável e de forma bestial, amor que nem o mais humano dos seres poderia imaginar, não fosse pelas mãos de Zafón.

“Marina” tem verdades e vontades que se entranham no leitor. Questionamentos de vida e morte além dos horizontes possíveis e padrões incomuns para demonstrar a forma visceral de certas redes tênues que igualam os humanos. O teor dramático do livro se dá, literalmente, de forma monstruosa, com tons marcantes de “O Médico e o Monstro”. E a tragédia beira o sublime de quem abraçou sua loucura abertamente nos entremeios de uma Barcelona desconhecida.

Caio F. dizia que abraçássemos nossa loucura antes que fosse tarde demais, aprendi com “Marina” que o ‘tarde’ na loucura é o fim da clareira, não a perda. Portanto, se há pulsar, abraça tua loucura. É ela que te sustenta.

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