Precisamos falar sobre o Kevin

 

O início do livro é o supra sumo da chatice, do egocentrismo e da futilidade de Eva Khatchadourian. É um livro pra quem aguenta um narrador enjoado que só olha para o próprio umbigo e que faz com que se justifique o fato de Kevin ser um filho problemático e distante. Porém… Eva se liberta dessas amarras tão logo decide abrir o problema por completo. Em cartas ao marido aparentemente ausente, ela deslinda o que viu da história do filho e não compartilhou com o marido nos anos de casada.

O interessante do livro ser em primeira pessoa é o fato de nos colocarmos na situação familiar da protagonista. Apesar de boa parte da balela dela ser completamente desnecessária, a parte realmente relevante é marcante. O desenho da personalidade de Kevin é bem traçado pelas atitudes dele, um menino difícil de lidar, sem amor a nada, que parece ver no deboche e na provocação maneiras de atiçar seus pares. Como um analista da raça humana às avessas, Kevin parece ver (desde cedo) prazer no incômodo e na dor alheia.

Há de se convir que o spoiler da contracapa da edição brasileira é crucial para matar qualquer surpresa que possa existir. Ao entender que Kevin é um psicopata, qualquer atitude dele, a qualquer momento do livro, é suspeita e transparece a natureza cruel de uma criança vil, sem quaisquer afetos. Apesar da anestesia de ter o enredo entregue, ainda assim existe surpresa. É impossível concluir o livro sem levar consigo o choque final de Eva. O choque da mãe que chega em casa consciente da própria histeria depois de saber o que o filho havia feito na escola, querendo achar no lar só um colo da família que lhe restaria.

De certa forma, Eva previra a desgraça que pairava sobre o teto dela, mas não tinha voz para ousar qualquer atitude que pudesse pausar a tormenta que se avizinhava. O marido julgava-a cruel por apontar culpas para o Kevin, achava que ela usava o filho como escudo para os próprios erros. Mal sabia ele que, depois de Kevin ser preso, Eva pagaria o preço de culpas que adquirira sem que tenha cometido qualquer crime.

Célia foi uma tábua de salvação para Eva, que não conseguia ser mãe como gostaria. Eva fez por onde engravidar sem que o marido desconfiasse, depois de muito haver tentado entrar num consenso a respeito de um filho além de Kevin. A família constituída era tão estranha que o casal fez um trato: Kevin pertencia ao pai, Célia, à mãe.

Não é de se admirar que o provável estopim para o ato final de Kevin pudesse haver sido a própria família. O adolescente aparentou mudança de postura após entreouvir que os pais estariam separando-se. NÃO. Não foi isso. Ele premeditou até a culpa de cogitar uma separação. Premeditou tal qual pensou em datas e detalhes primordiais do massacre em sua escola.

E quando questionado, dois anos depois, respondeu à mãe que, no começo, sabia o que o motivara ao que fez, mas agora…

 

E o que restou a Eva quando viu o monstro que seu filho realmente era (talvez sua última solução) foi amá-lo com a incondicionalidade do amor de uma pietá… quando toda uma sociedade decidiu que ela era digna de hostilidade como se houvesse executado o crime pelas mãos do filho.

Anúncios