Dia nacional do Livro.

Era pra ser feriado, pra gente ficar em casa lendo e tomando café, feliz da vida.

Mas não, o feriado da semana é uma celebração à morte e tudo de bom que ela traz quando as pessoas morrem: A multiplicação da vida de vermes, moscas e baratas nos entes queridos.

Então na sexta todos iremos aos cemitérios com flores MORTAS homenagear pessoas a quem tanto amamos um dia e hoje em dia só lembramos em aniversários, assuntos desagradáveis e finados.

É, e talvez tenha uma procissão cantando músicas animadíssimas da missa de 50 anos atrás, com aquele padre de fala esquisita rezando pelas almas dos que já se foram quando nem eles mesmos sabem no que creem quanto ao post-mortem.

E as véias fingindo que concentram o pensamento no Jesus adorado quando, na verdade, estão tendo crises de ausência ou estão tendo de arranjar forças do além pra se manterem acordadas no meio de tanta abobrinha. Palavra da salvação.

Diante de tanta coisa linda dos finados, os cemitérios lotam com o pessoal que vai limpar as sepulturas e recolocar flores que gritam, aos berros, com aquele cheiro de morte, que estão sendo sacrificadas por gente tão morta quanto elas, que não são gente, mas não merecem essa cultura caótica de morte que implantamos por aí.

Nunca vou entender essas coisas. Um dia do ano para lembrar os mortos. Lamento, mas os mortos um dia foram vivos e foram amados pelas pessoas próximas a eles. Será mesmo possível que as pessoas precisem de um dia no ano como quem precisa atar uma fita no dedo para que se vejam forçadas a lembrar que restou ainda alguma obrigação com o finado? Será que essa lembrança não deveria ser obrigação dos laços de afeto que a vida fez por onde estabelecer?

E mais, se a pessoa morreu… que coisa é essa de guardar em caixa, aprisionada, num quadradinho debaixo do chão ou em um paredão? Liberta a pessoa que já se livrou do fardo de uma vida mortal aqui nesse inferno! Cremação é caro, eu sei. Não dá de soltar a apodrecer na rua também… mas deixa virar pó, exuma e pronto. A pessoa não está ali. Sobraram poeira, trapos, baratas, mofo e lascas de madeira na tumba que tanto se limpa em todo 2 de novembro.

Homenagem se faz em vida. E na morte se pede que o universo acolha a alma de quem se foi (pra quem acredita em alma, porque se não acredita, faz menos sentido ainda cuidar de um jazigo).

Botem na minha conta, além do ódio à morbidez dos aniversários, o ódio ao dia de finados. A obrigação de lembrar os mortos é NOSSA. E fim. Se não lembrou, não tem problema, nem a consciência vai incomodar, já que não lembrou mesmo.

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