Ramon, meu primo amado,

A cada vez que eu penso em ti o meu coração se aperta. Não que isso seja mau, mas eu não queria te amar assim. Me dói pensar na tua partida e pensar todo o tempo que desperdicei ausente porque “assim é a vida adulta”. Tanto trabalho, tanto estudo, tanta correria… e tanta ausência. Sei que não precisaste de mim, mas quem vai ter uma lacuna agora sou eu.

Primo, eu sei o que passaste, sempre conversamos muito sobre tudo e eu conheço a tua força e sei que a tua alma já vem pronta pro que vier desde sempre. Difícil pensar que cada tchau pode ser o último e eu sei que sempre falei que “todos vamos morrer” e que ” a diferença é que uns vislumbram a navalha descendo enquanto outros são deitados de costas na guilhotina”. Mas a morte é real e eu que fico por aqui mais uns dias não sei nem como  me despedir, nem como falar tudo o que ficou de lição, nem do quanto gosto de ti.

Tu que sempre elogiaste meus poemas vais estranhar a minha falta de destreza com as palavras nessa hora tão dura em que sei que estás partindo. Fica ciente que pra mim foi um prazer dividir parte da existência contigo e que um pedaço meu vai junto pra onde quer que vás. E que fica, se ficares. Teu riso, teu jeito apressado de falar, teu abraço apertado que não se abre mais por falta de forças, tua força interior imensa e vontade de viver iluminaram o meu pessimismo.

E esse coração apertado que eu tenho carregado é o peso da saudade que começa a se anunciar quando eu sei que me reconheces só pelo teu olhar, já que as tuas palavras se ausentam.

Se tiveres que ir, vai… Deixa a tua dor por aqui. Os espíritos livres precisam voar e vai ser o teu amor o que vai te salvar. Mas se fores ficar, eu quero pelo menos mais um mate contigo, pra me contares naquele teu entusiasmo adolescene dos filmes que viste, dos livros ruins que leste, das peripécias da Manu e dos sonhos que sonhaste noite passada…

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