Eu só ouvi a porta bater. E fui eu quem bateu ela. E tu ficaste ali, parado, olhando pra porta fechada à tua frente. E o teu silêncio me matou, o teu conformismo me doeu fundo, mais do que possas crer. E, enquanto eu caía no mais fundo do teu conformismo, o meu corpo se comandava e eu não sentia mais nada. Só o frio do piso que havia acabado de beijar os teus pés.

Mais um fim pra minha coleção e eu já não posso suportar o que vai ser das minhas horas silenciosas. Não que já não tivesse o silêncio… mas no fundo dele ainda havia uma esperança teimosa que me dizia que ia mudar, que podia mudar, que TINHA que mudar porque o meu desespero me consumia enquanto eu consumia as unhas e os cigarros.

E o pior de tudo foi não conseguir te desenhar de maneira clara o suficiente o quanto cresceste dentro de mim de uma forma selvagem. Fui incapaz de te dizer o quanto reverberava aqui, no peito, o que eu carregava por ti. Eu tinha flores em mim, lembras das margaridas ao sol? Eu tinha riso e som e agora só me restou esse silêncio no piso gelado, já que nem os teus passos eu quero ouvir.

E deixas aqui o mesmo que levas contigo, uma mala de mágoas, ofensas e toda a minha perturbação. E a minha carência é um mar onde eu afogo quem ousar olhar dentro dos meus olhos e viajar para dentro de mim. Mergulhar no desconhecido é sempre um risco. Eu sou um mar bravio.

Mas todas as despedidas são insuficientes quando as partidas ficam tão suspensas. São dois silêncios se confrontando e nem todas as palavras que existem são suficientes pra que eu deixe claro tudo o que eu preciso dizer. E o relógio fica tiquetaqueando na minha cabeça dizendo “vai, abre a porta, ainda tem tempo de dizer o quanto te importaste, o quanto quiseste, o quanto tinhas pra dar de ti e não deste, faz com que ele volte, rápido”.

É um nó no peito que sobe pra garganta, os olhos que pesam, o ímpeto de gritar que eu sufoco. Não vou chorar, não vou chamar. Não quero, NUNCA CONHECI, nunca quis tanto assim. Me deixa aqui no silêncio, eu sempre gostei dessas horas solitárias e desse chão frio. Relógios não falam.

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