Nas duas últimas semanas tivemos, na escola em que trabalho, as reuniões com pais/responsáveis com a finalidade de apresentar a equipe de ensino, as propostas da escola, as regras e outros detalhes comuns em reuniões de início de ano letivo. E nessas reuniões, dentre inúmeros assuntos abordados, talvez o mais comum tenha sido a internet e seu uso. Não que fosse assunto em pauta, mas era o assunto que sempre acabava aparecendo entre um debate e outro. Então eu, como usuária e como professora (“educadora”, diriam os mais apegados a nomenclaturas), parei para pensar nas tais de internets.

Vamos aos fatos: hoje em dia a internet é artigo de primeira necessidade, as relações interpessoais se dão por ela. Tirar a internet de uma pessoa (independente da faixa etária) é privá-la de contatos com outras pessoas que também usam a internet, já há quem diga que isso não é um castigo aplicável a filhos desobedientes. Mas e até onde não se pode colocar um limite no uso exacerbado dessa ferramenta? A internet veio pra aproximar pelo afastamento, pra ajudar em pesquisas, ampliar horizontes e tornar toda e qualquer informação imediata. Grandes vantagens, fenomenal! Só que o lado obscuro do uso excessivo da internet pouco tem sido contemplado.

Relacionando ao que foi conversado com os pais em reunião, a internet está mudando os hábitos dos adolescentes de forma a prejudicá-los no desempenho em sala de aula, principalmente os que estudam no período da manhã. E muitos pais, como que anestesiados, NUNCA tinham relacionado uma coisa à outra. Como assim? Explico-me: os alunos do turno da manhã, principalmente durante os primeiros períodos, demonstram um comportamento sonolento, apático e, por vezes, até irritadiço. Parecem acordar cansados. Isso é reflexo de noite mal dormida ou, ainda, NÃO dormida. Fora estes traços de sonolência, existe a dificuldade de concentração, agitação repentina e a mudança brusca de assuntos, como se não houvesse uma linearidade de pensamento, como se o pensamento quebrasse em um ponto e reaparecesse em outro, totalmente diferente.

Claro que não se pode culpar somente a internet por esses fenômenos, mas certamente boa parte do problema reside nela. Pensa num adolescente, estudante da manhã, que chega na escola sonolento, passa o primeiro período fazendo força pra se manter acordado e pra se concentrar em aula. Qual é a primeira reação dele ao chegar em casa? Almoço e cama. Não falo de todos, mas certamente boa parte deles faz isso. Aí mamãe justifica: “é que ele está em fase de crescimento, acordou muito cedo, teve uma manhã desgastante na escola”. Sim, essa justificativa era muitíssimo válida na MINHA geração, que ainda não era conectada. Dormíamos como animais. Mas por pura malandragem mesmo. Esta geração é diferente, discorde de mim quem quiser.

A pessoa que se deita e dorme uma tarde inteira, tende a despertar tarde, lá pelas 17h, 19h. E faz o que? Come de novo e se atira por cima das teclas do computador pra exercitar sua capacidade de isolamento da vida real, rindo pra uma tela, teclando como se o mundo acabasse amanhã. Mas a internet é uma tentação – que o diga eu, que se não estou online no notebook, estou online via celular debaixo das cobertas antes de dormir – e o relógio segue seu curso… quando o viciado vê, já são 2, 3, 4 da manhã. Mas de manhã a escola funciona de novo e espera o aluno, que é cobrado dos pais que frequente as aulas, então ele se deita 5 da manhã e acorda às 6 pra se arrumar pra escola.

E o ciclo se reinicia.

Em aula, o coitado do professor, numa marcha lenta na construção do conhecimento dos alunos, se questiona soluções pra melhores notas, pra aumentar o interesse dos alunos, mas não vê nada no horizonte a não ser um ponto de interrogação. Afinal, qual é a função de um educador numa era que a informação está a um clique de distância? Seguimos uma profissão que, em pouco tempo, se tornará obsoleta. Não só pelos formatos quadrados que tentamos arredondar, mas pela lentidão de informação. Só não somos obsoletos ainda porque existem verdades fundamentais a serem propagadas que a internet, com toda sua gama de informações, ainda não contempla com qualidade.

E os pensamentos “quebradiços”? Pois é… este é o tal do multitasking deixando suas consequências. Pra quem desconhece, multitask é a capacidade multitarefa, aquela que me permite ouvir uma música enquanto eu acompanho o mural do facebook atualizando e twitto sobre o que estou comendo e vejo televisão baixando um filme e fazendo o tema de casa. Confuso? Bagunçado? Experimenta, dá pra dar conta sim. Basta abrir 19862178 abas no navegador, o Word pra colar a Wikipédia pro professor de filosofia aquele abobado, o torrent pra baixar o seriado, ligar a TV e levar o prato de comida pra mesa do computador. É divertido, é legal… e o tempo escorre das mãos.

O problema dessa diversão toda se dá a longo prazo. Isso porque o cérebro não assimila por completo todas as informações justamente por ser exposto a muita coisa ao mesmo tempo, então ele “particiona” a concentração e a habilidade de memorização, é como se eu soubesse um pouquinho de cada coisa que vi, muita coisa eu vou acabar esquecendo, mas saber ou lembrar 100% de algo que li ou assisti, eu nunca vou saber ou lembrar, porque o meu cérebro não conseguiu absorver tudo adequadamente. Agora deu pra entender porque o filhote leu uma tirinha tão legal e maravilhosa e engraçada e não consegue lembrar o que era? O sentimento marcou e ficou, mas a memória sobrecarregada por muita informação em pouco tempo não colaborou. Não é memória fraca, é multitask somado às noites mal dormidas.

E os links? Aquela pressa nervosíssima de associar mil e um assuntos a um assunto central? Decorrente da internet também. Eu li algo que achei legal e no site tinha um link pra algo relacionado, linkei, e achei mais um linkei linkei linkei… comecei lendo sobre creme dental e terminei no link que falava de pandas albinos no norte da Malásia. Aí meu professor em aula comentou do Dom Casmurro que foi corno e eu lembrei que o meu tio corno foi viajar… e deu-se o caos em forma de pensamentos. E do link do professor veio o aluno falando do tio e a outra aluna lembrou que… Aí o sinal bate com uma discussão calorosa sobre o que é melhor: ferrero rocher ou kinder ovo?

O ensino vive anos difíceis, está difícil fugir das formas retrógradas de ensino (lembra The Wall?), está difícil conviver com a rapidez de informação, está difícil conviver com o desrespeito dos pais que pensam que a culpa das notas baixas é sempre do professor e está difícil conviver com o desrespeito dos alunos em sala de aula. A falta de barreiras dos alunos eu também devo, em parte, à internet.

A minha geração (e as que me precederam) é do tempo em que se fazia fakes no Orkut pra xingar pessoas, porque seria a morte xingar alguém com o próprio rosto no perfil. Só os mais corajosos faziam isso, correndo o risco de tomar uma surra na vida real. Essa nova geração começou com as indiretas em seus twitters, com foto e nome. Mas eram somente indiretas. Agora a “patada” é aberta, com destinatário e remetente. Eu tenho uma tela me protegendo, posso falar o que quero. Só o que não se percebeu é que o desaforo rompeu a barreira dos teclados e foi pro cara a cara. E vem disfarçado de sinceridade. Falta mostrar aos adolescentes até onde é sinceridade e a partir de onde vira desrespeito. Mas como os pais mostrarão isso se os filhos não conversam? “Nem ouço a voz do meu filho, sei que ele está em casa pelo tec tec do teclado do computador”.

Não sei a solução pra tanta consequência decorrente do uso de internet, mas penso que o diálogo precisa existir. Estamos criando uma geração que não sabe conversar, só sabe teclar, e isso só tende a piorar com o passar dos anos. Nossos adolescentes não sabem opinar, não sabem argumentar, estão retrocedendo na escala evolutiva. O argumento atual “Se eu não souber vencer o argumento da fulana, eu dou um soco na cara dela e mando ela tomar no cu” está confirmando o argumento da minha geração “a hora que perde os argumentos, começa a praguejar”.

Tenho vivenciado a questão da falta de argumentos nas minhas aulas de Produção Textual e tenho me apavorado. Está difícil tirar os alunos do ostracismo, fazer escolherem um dos lados do muro é difícil quando o mais fácil é ficarem em cima dele. Esta é uma geração que não serve nem pra ser rebelde sem causa. Está tudo muito fácil na vida deles, pra que se revoltar? Mas o que eles não percebem é que a falta de inquietação deles é o que nos inquieta enquanto formadores do futuro da nação. Que profissionais teremos nos próximos anos? Uma galera que acha graça de uma tirinha de meme e não sabe te dizer o motivo de ter sido tão engraçado… se no simples é assim, que se dirá do complexo? “Sou neutro quanto ao aborto, não sou mulher, mesmo. Mas se o filho for meu eu mando abortar, porque eu não vou bancar ninguém, abriu as pernas pra mim porque quis.

E a inquietação deles? Essa é a pior parte. Muito tempo parado deixa qualquer adolescente inquieto. “Ai, os adolescentes de antigamente eram tão mais agitados”. Claro que eram, mamãe. Eles não eram reféns de máquinas mutitarefas como computadores, tablets, smartphones, iphone, ipad iqualquercoisacominternet. Deixa um adolescente sentado por 4 horas numa sala de aula sem acesso ao mundo virtual e tenhas uma manada de selvagens desesperados por qualquer período de 2 minutos vendo qualquer porcaria desatualizada no celular. É sério! Bate o sinal para o intervalo e os meus alunos todos sacam os celulares com aquela carinha de alívio de quem foi ao sanitário depois de 3 horas com vontade de fazer xixi… aaaaah. E nada aconteceu no facebook, porque os amigos da TL deles também estavam em aula ansiosos pela paradinha sem poder postar nada. Inquietação pela desocupação mental e, principalmente, pela CRISE DE ABSTINÊNCIA. Sim, crise de abstinência virtual. Antigamente a gente queria o recreio pra ver o gatinho da escola… agora é pra ver o facebook do gatinho da escola pra ver a quantas anda o mural e o status de relacionamento dele.

Os pais se preocupam com o tempo de uso do computador, a ausência de diálogo e o comportamento anti-social dos filhos… mas será que todas essas implicações não são motivo suficiente para que haja uma contenção maior no tempo de internet dispensado aos adolescentes? Até um adulto é capaz de se prender nas armadilhas da internet e acaba pagando o preço da influência dela fora do computador, que se dirá de seres em formação como os adolescentes? Há que se ter mais cuidado, mais controle. Odeio a palavra controle, mas penso que ainda pode ser o caminho pra amenizar muitos dos problemas atuais no que tange à adolescência. Controle do uso excessivo de internet (não é o corte total), controle das atitudes, controle dos estudos, controle, simplesmente. É o excesso de liberdade e a falta de limites que está produzindo seres humanos cada vez mais rudimentares. Qualquer dia veremos a gurizada grunhindo.

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