“Um voar de páginas insano” seria o que eu escreveria caso fosse uma jornalista famosa que faz reviews babacas de best-sellers para jornais de grande circulação. Mas como não passo de uma professorinha de inglês e blogueira fracassada, darei minha leitura simples e salve-se quem puder.

Rose Madder foi parar em minhas mãos em uma semana que me forçou a querer uma mulher kinguiana que fosse, no mínimo, bipolar, psicótica e bem – mas bem mesmo – psicopata. A investida não foi muito feliz mas, ainda assim, me deu boas horas de tensão e leitura frenética embalada por um mantra que me convencia que – eu sou Rosie, e Rosie muito real.

O livro é um confronto forte com a realidade de uma mulher que sofria todas as formas de violência de que seu marido dispunha para puní-la por erros que ela jamais cometeu. Rose, que vem a tornar-se Rosie quando se liberta, representa ficcionalmente a força de várias mulheres reais que são violentadas e que tiram forças de coisas que, a uma mulher comum, parecem minúsculas e acabam conseguindo se retirar do ambiente do lar opressor.

Rose, depois de aborto, pulmão perfurado, abuso sexual com raquete, dentre outras formas absurdas de violência e perda de sangue, tem sua reação desencadeada por uma única mancha de sangue que, de acordo com ela, tinha o tamanho de uma moeda. Foi o que botou ela “na linha” depois de anos e anos de um casamento que não fazia com que ela fosse feliz.

King desenha perfeitamente as dores emocionais que uma mulher que é tão ferida carrega consigo e, de quebra, mostra o psicológico do homem doentio que acarreta todo um trauma na esposa que está sob seu jugo. É o ser humano se desumanizando em um animal irracional que justifica legitimamente sua crueldade por não entender o que faz de tão mal. Parece confuso, eu sei. Mas pobre Norman, ele não entende que tipo de coisa tão ruim ele pode ter feito para que a mulher dele tenha fugido.

Mas Rose não cede e é implacável com o passado. O livro surpreende a cada nova descoberta. Rosie é uma mulher nascendo pra si mesma, pra vida e pra sociedade. Cada novo detalhe descoberto é um grande reinício pra uma mulher em fase de reabilitação emocional. E este é o foco do livro: mostrar cada bote salva-vidas a que Rosie se agarrou na fuga de Norman Daniels, o marido que nunca deixou faltar nada a ela, só sanidade.

 

É melhor ser implacável com o passado. O que importa não são os golpes que a gente leva, e sim aqueles aos quais a gente sobrevive.

(Stephen King, Rose Madder)

 

 

 

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