Não me desconcentra, não me faz dormir, pára de me embalar rumo aos sonhos, não quero fechar meus olhos nem desligar meu pensar. Deixa eu te falar o que eu sinto aqui dentro, no mais fundo de mim… cala a cantiga e entende que o que me embalou nesse tempo todo foi o som dos teus passos e a brisa da tua respiração. Como um bailarino trôpego que mal sabe como calçar as sapatilhas, bailaste no meu peito como quem dança uma dança cossaca aos risos, pisoteando, ferindo, esmagando o lado sentimental que eu sempre fiz por onde estrangular.

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Não me olha tanto, não lê meus olhos porque eles não dizem nada… estes meus olhos de peixe morto que parecem estar sempre se apaixonando repetidas vezes quando, na verdade, eles são é tristes e solitários. Não tenta decifrar dentro dos meus olhos nada do que eu não tenha te dito, eu não sou tão óbvia quanto pareço, eu tenho entrelinhas, tenho segredos asfixiados num cofre que escondo bem longe dos meus olhos. Deixa que as minhas verdades brotem do silêncio do teu sorriso tão bonito e tão amarelo… e é te vendo sorrir que eu me pergunto por que te degradas tanto quando tens esse ego tão inflado por ti mesmo e por uma corja de patetas, como eu, que fazem a asneira de adorar um ser que se degrada só pelo ar de rebeldia que a degradação dá. Não te pune assim, não vai compensar, não fere a tua própria carne, mas tenta me entender.

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Não, eu não estou com sono, pára de afagar o meu cabelo que eu não sei mais conjugar o verbo dormir desde que eu aprendi o verbo querer. Não é fácil o tal português, nem te querer assim, mas não quero falar disso agora, não, não é conversa perdida de quem vai cair no sono. Me ouve só mais um pouco e entende que esse poço onde eu moro é minha casa há muito tempo, eu já me sinto até confortável nele… e me perturba pensar que eu possa estar fora dele em algum momento. Por ora ele me serve mui bien. Sabes como é, cancerianos tem uma zona de conforto imensa e é na perturbação que eu encontro o meu conforto, mas eu deixo a porta da minha perturbação aberta caso queiras entrar. Eu gosto daqui, não falo do apartamento (que eu também gosto), falo do poço… eu gosto dele porque gosto de ti. Quando eu me desligar de um, eu me desligo do outro, entendes? És um poço dentro de mim. E eu cavo cada vez mais fundo, é a saída. Um dia eu saio.

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Calma, não vai embora, não desiste de mim, eu vou deixar dormires… mas se queres ir, vai. Eu já me acostumei a colecionar fracassos e não me importo se vou ter mais uma frustração na coleção. Na verdade, o que eu queria te dizer é que eu não aguento mais os teus fantasmas por toda a parte, na minha janela, no meu portão, na minha rua, na minha vida. Eu rasgo o ar com os punhos vendo o teu sorriso se escancarando à minha frente. Pára e ouve! A tua falsidade é tão completa e solidária que contemplou até o melhor de mim… até o que eu senti foi falso dentro de tanta mentira. E foi tanta água envenenada que eu joguei ácido no que podia ter sido feito de qualquer coisa  de nós no futuro. Ah, mas vais embora sim, eu não quero mais ouvir o teu português mais roto que o meu, e já que vais sair, recolhe os teus fantasmas e apaga a luz que eu tenho sono.

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