Por trás da capa do que parece mais uma historinha boboca para adolescentes mijões, Jeanette Rozsas descortina uma história esférica de um tom sombrio e tenso que, por vezes, me fizeram acreditar na Literatura Brasileira de Horror.

As Sete Sombras do Gato é, a olhos nus, um romance policial que parece se perder em um labirinto. Pra leigos, pareceria que a autora em algum momento perdeu a sintonia e não sabia o que fazer até ir tomando o rumo do final do livro. Mas pros que de fato entenderam, as sete sombras de Lúcifer, o gato preto, foram bem desenhadas à luz de dias cinzentos e ao som de violoncelos que choravam melodias de  Bach. E em um gênero difícil de categorizar por ter traços de suspense, traços de terror, um pouco de intimismo, um certo noir e até mesmo amor romântico.

O livro é permeado de referências a outras obras, Poe é uma presença muito bem marcada na escrita da trajetória de José Josafá, o tira metamórfico que protagoniza a busca por uma razão depois da investigação de um suicídio com requintes macabros. O frio, o céu constantemente nublado, os dias sem sol, cemitério, violoncelos, Europa, chuva, sonhos estranhos… inúmeros elementos que se unem a um padrão estético voltado senão para o terror, ao intimismo de um suspense que não se abre escancaradamente nem ao final da história.

De leitura simples, mas com toques femininos que frequentemente lembram a escrita de Clarice ou Virginia, As Sete Sombras do Gato desenha as personagens mais pelo seu interior do que pelo exterior, o tempo é cronológico com constantes feedbacks breves que compõem a esfera da delegacia, com seus inúmeros relatos investigativos. Isso sem comentar no mito da presença feminina como tentação, motivo que faria com que os homens se perdessem dentro de seus próprios instintos.

Além do mais, Jeanette soube como usar Bach e os violoncelos em sua obra. Se a intenção dela era uma homenagem ao famoso músico, então ela conseguiu uma homenagem primorosa. Que discorde de mim quem conheceu Fausto, sua mansão e as vozes de suas várias noivas musicistas que refaziam toda a perturbação artística que apenas um músico como Bach seria capaz de traduzir em notas. Seres humanos prisioneiros de uma obra, quem conceberia algo assim?

Recomendo a leitura. Um livro simples, mas que por vezes confunde o leitor, de leitura fluida, personagens bem desenhados em toda a sua dubiedade  e história que, de vez em quando, mete um medinho nervoso. Este é As Sete Sombras do Gato e todos os seus duplos, triplos, inúmeros… sentidos e sombras.

Não entro em maiores detalhes de enredo porque penso que a mesma curiosidade que me levou à leitura dele deve ser o que deve atiçar aos demais leitores. Recomendo ainda mais a “leitura” dele em audiobook, o qual conta com as melodias de Bach ao fundo e acabam potencializando os efeitos do livro a cada capítulo ouvido. Música clássica, assim como boa leitura, nunca devem ser demais.

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